sábado, 1 de novembro de 2008

Verbo

O problema de tudo vem dos verbos. Os verbos limitam, classificam, isolam, apontam características dos seres. Tudo poderia ser absolutamente qualquer coisa sem os verbos, mas não, lá estão eles para dizer que isso é assim e não assado. O poder dos verbos é tamanho que em diversas culturas a criação do mundo e do Universo lhes é atribuída. Afinal Deus disse “Faça-se a Luz!”, e a luz se fez. Justo Deus, ao qual não se podem – ou ao menos não se deveriam – atribuir adjetivos, ligados por verbos. No Sri Isopanisad (um livro hindu), diz-se em determinado capítulo que Deus é Aquele que anda mas não anda; fala mas não fala, é mas não é. Esta é a diferença entre o homem, o mundano, e Deus, o divino: Deus não pode ser limitado por verbos, não se pode dizer que Deus é assim e não pode ser de outro jeito. Deus pode ser tudo, é isso o que O faz Deus, o incompreensível, pois se pudéssemos compreendê-Lo Ele não seria Deus.
Justamente por não poder ser cerceado por limites verbais, Ele encerra em si tudo o que há de bom e de ruim, tudo o que há nos nossos corações, como sua imagem e semelhança. Aliás, Ele é limitado por limites verbais, mas não é limitado por limites verbais.

Gostaria de esquecer do que preciso. Gostaria de esquecer do que gosto. Gostaria de escrever estes versos em prosa. Não depender de conseguir, não depender dos verbos, não dever ser nada. Há duas tragédias na vida: uma é quando não conseguimos o que queremos, e a outra é quando conseguimos.

Odeio o imperativo. É a nossa língua corroborando com a discriminação, a vontade de um sobre o outro. Os pronomes de tratamento também. Vós é mais do que Você. O Senhor, A Senhora, são mais do que Tu. Somos todos iguais, nascemos do mesmo jeito, e assim morreremos. Nada mais sublime do que o poema “O mundo é um túmulo” de autoria atribuída a Nezahualcoyotl (1402-1472), Rei-Filósofo de origem Alcolhua, um dos fundadores do Império Asteca:

O mundo inteiro é um túmulo e nada escapa disso.
Nada é tão perfeito que não desça até sua cova.
Rios, riachos, regatos e fontes fluem, mas nunca retornarão aos seus joviais começos;
Ansiosamente eles seguem para os vastos reinos do deus da chuva.
Assim como eles alargam suas margens, também modelam sua triste urna mortuária.
Cheias estão as entranhas da Terra com poeira pestilenta outrora carne e osso.
Outrora corpos animados de homens que sentaram sobre tronos, decidiram litígios, presidiram conselhos, comandaram exércitos, conquistaram províncias,
possuíram tesouros, destruíram templos, exultaram seu orgulho, majestade, fortuna, glória e poder.
Desaparecidas estão essas glórias, assim como a fumaça amedrontadora expelida pelo fogo infernal do Popocatepetl.
Nada mais os recordará senão a página escrita.


Maxtla que o diga.

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Nota: Maxtla era o arqui-rival de Nezahualcoyotl, filho e sucessor de Tezozomoc, rei de Azcapotzalco, reino que subjugou Texcoco, terra de Nezahualcoyotl, quando este tinha 15 anos. Nessa ocasião, Nezahualcoyotl foi obrigado a ver seus pais serem assassinados por soldados de Azcapotzalco. Maxtla foi sacrificado aos deuses quando Azcapotzalco foi invadida pelas forças da tripla aliança (Texcoco, Tlacopan e Tenochtitlan), a qual viria a formar o Império Asteca.

Um comentário:

Christiane M. Rego disse...

Preciso dizer que sou a tua fã?
Adoro-te pequeno grande homem. Beijão!

P.S: A gente nunca esquece mesmo.