sábado, 11 de fevereiro de 2017

Kuben Kakrit: As divindades malignas do Xingu


‒ Sua teimosia ainda vai nos meter em grandes apuros, Yara...
‒ Shhh! Silêncio, Imex! ‒ repreende Yara, irritadiça. O Sol já está quase sobre sua cabeça e até agora a pequena não conseguiu capturar nenhum peixe com sua lança improvisada.
Imex suspira, cansado de caçar borboletas com seu irmão gêmeo, enquanto sua irmã mais velha insiste em fazer trabalho de homem.
‒ Já temos bastante peixe para o tàkàk, os adultos já trataram disso. Mesmo que você pesque algo será quase nada perto do que vai ter hoje à noite! ‒ continua o menino.
Yara decide manter silêncio e se concentrar. Desde o começo ela sabia que era má ideia trazer seus irmãozinhos para o igarapé, mas eles insistiram tanto em vir junto com ela, ameaçando contar tudo para a avó, que Yara aceitou.
‒ Por que você não faz assim como Amex e voltar a brincar com as borboletas? Olhe como seu irmão está feliz... Amex? ‒ volta-se Yara ao menino, que agora parece petrificado.
‒ Vejam isso! ‒ aponta Amex para o rio.
As crianças vêem uma grande quantidade de peixes mortos descendo pelo curso d’água, cada vez mais turvo, quando algo entre eles se destaca. Ao aproximar-se, as crianças entendem, chocadas, que trata-se do corpo de um homem, adulto, quase desnudo.
‒ O que será que aconteceu com ele? ‒ pergunta Amex, segurando a mão da irmã, amedrontado.
‒ Não sei, mas acho melhor voltarmos para casa. ‒ diz Yara, tão amedrontada quanto o irmão, porém esforçando-se para manter a calma e a pose de irmã mais velha, destemida.
Após algum tempo de caminhada, as crianças avistam uma coluna de fumaça surgindo do meio da mata. Barulhos estranhos e grunhidos são ouvidos. Yara se abaixa, levando os irmãos junto consigo, quando Amex pisa no espinho de uma macaúba.
‒ Ai! ‒ grita o menino, acossado por uma dor pungente. Sua boca é rapidamente tapada pela mão de Yara, atônita.
Mais grunhidos são ouvidos, seguidos de barulho cada vez mais próximo de folhas secas sendo machucadas. De repente, um raio corta o ar e as plantas, na direção das crianças. Yara não entende como um raio pode surgir daquele jeito, sem chuva, mas o barulho de trovoada assegura que é melhor correr. Mais e mais raios cortam a mata e os grunhidos avançam ferozmente.
Amex corre com dificuldade, sendo puxado pela irmã. Logo a trilha fica para trás e as crianças se vêem em terreno desconhecido, em meio à mata fechada.
‒ Bem que a vovó avisou! Ela disse para não sairmos sozinhos pela floresta, porque os Kuben Kakrit iam nos pegar! ‒ lamenta Imex, deixando um rastro de sangue por onde passa.
‒ E como você sabe que são Kuben Kakrit? Você nunca viu nenhum! ‒ retruca Yara, tentando tirar esse pensamento da cabeça do irmão.
‒ Eles aparecem de várias formas, a vovó disse, não lembra? Eles podem inclusive se parecer conosco! ‒ responde o menino.
Subitamente, Imex, que abria caminho com uma vara, se detém.
‒ O que foi, Imex? ‒ pergunta Yara, ofegante e desesperada.
Não é necessária nenhuma resposta da parte do irmão. Yara e Imex se deparam com uma visão tão estranha quanto curiosa.
Why are you running, kids? ‒ grunhe o que parece ser uma mulher, pálida como a lua cheia, de cabelo amarelo e olhos cinzentos, como se fosse cega, mostrando seus dentes amarelos e medonhos como se sua intenção fosse sorrir... ou devorá-los. Seu corpo está coberto como que por uma rede de pesca muito, muito fina, de cores outrora vivas, hoje desbotadas e gastas. Ao seu lado encontra-se o que parece ser seu oposto masculino, acompanhado por um homem normal, porém vestido de maneira semelhante.
‒ Kuben Kakrit! ‒ grita Amex, atônito.
‒ Djã ne ga aprõt? ‒ pergunta o homem normal.
‒ Ele fala a nossa língua?! ‒ surpreende-se Imex.
‒ Vai que os Kuben Kakrit também falam nossa língua!? ‒ exclama Amex.
‒ Quietos! ‒ repreende Yara. ‒ Deixem que eu cuido disso!
A menina se aproxima do misterioso trio, ao passo que junta seus irmãos logo atrás, protegendo-os com seu próprio corpo.
‒ Você é metuktire? ‒ pergunta Yara ao homem normal, notando seu sotaque.
‒ Sou. ‒ responde o jovem, não muito mais velho que ela, embora aparente ser. ‒ E você, menkranoti?
‒ Menkranoti, sim... ‒ responde Yara, vendo no jovem uma chance de se salvar de seus perseguidores. ‒ Tem monstros nos perseguindo, eles soltam raios e fumaça, fazem barulhos estranhos e estão matando o rio!
‒ Não temam, vocês estão seguros conosco. ‒ sorri o jovem. ‒ Vocês vão ver, não há motivo para ter medo.
‒ Só precisamos que vocês nos acompanhem até a nossa aldeia e...
O barulho de folhas sendo machucadas alcança a pequena clareira onde o grupo se encontra, para espanto das crianças, que não esperavam ser alcançadas tão rapidamente. Das moitas saltam três figuras aparentemente humanas, sujas e maltrapilhas.
‒ Ah, então vocês acharam os pestinhas! ‒ grunhe um deles, visivelmente embriagado, numa fala incompreensível para Yara e seus irmãos.
‒ Eram esses os grunhidos que eu ouvia! Esse barulho de folhas... ‒ exclama Amex, apavorado.
‒ Calma, eles são amigos. ‒ sorri o misterioso jovem. ‒ O que vocês querem com os pequenos?
‒ Mais um morreu hoje de manhã, por causa dessa maldita malária! ‒ esbraveja um homem de espingarda. ‒ Precisamos de mais gente para trabalhar na mina, mas não podemos chamar a atenção dos índios, por enquanto... Esses meninos nos vem a calhar, ainda são pequenos, mas isso até que é bom, dá para fazer a cabeça deles contra a aldeia. Quando tivermos bastante ouro e armas, eles vão lutar do nosso lado!
O jovem explica a situação para a mulher e, em seguida, traduz:
‒ Mary diz que é para levar somente os meninos. A menina deve voltar para a aldeia e dizer que eles morreram afogados. Assim, ninguém saberá da mina.
‒ A gringa confia demais nessa diabinha... Como garantir que ela não abrirá o bico e trará os bugres para resgatá-los? ‒ pergunta um dos garimpeiros.
‒ Deixe isso conosco. ‒ responde o intérprete. ‒ Ande, menininha, entregue-nos seus irmãos. E se der um pio lá na aldeia, eles morrem!
Yara não entende bem o que está acontecendo, mas sabe que não pode confiar naqueles estranhos Sorrateiramente, ela segura os braços de seus apreensivos irmãos e bate em disparada, ao que o homem da espingarda atira em sua direção e ela para instantaneamente.
‒ O raio! Kuben Kakrit! ‒ exclama Amex, desesperado. ‒ Bem que vovó avisou...
‒ Mais um passo e eu acabo com vocês! ‒ grita o homem da espingarda, cuja língua as crianças não entendem, mas seu tom ameaçador, sim.
Entendendo que estão numa enrascada, cercados de Kuben Kakrit, as crianças suam frio, sem saber para onde ir, com o cano fumegante do lançador de raios apontado para elas.
De repente, do meio da mata, surge um enorme vulto que voa em direção ao pescoço do garimpeiro armado: uma enorme onça pintada, cujos incisivos dentes rasgam a pele de sua vítima, arrancando suas veias como uma erva daninha é extraída pela raiz. A fera logo trata de liquidar o garimpeiro seguinte, ao que o terceiro rapidamente pega a espingarda de seu colega morto e dispara, em vão, pois a fera desvia.
Mary, como que ao mesmo tempo atônita e extasiada, ergue a bíblia que carregava em direção à onça, proferindo um de seus trechos:
Then the king commanded, and Daniel was brought and cast into the den of lions. The king declared to Daniel, “May your God, whom you serve continually, deliver you!” Daniel 6:16!
            A enorme onça, atraída pela voz da missionária, corre em sua direção, destroçando a bíblia com suas garras afiadas e devorando o rosto da mulher, quando o garimpeiro finalmente consegue acertar um tiro nas costelas da fera, que continua a devorá-la ferozmente, como se a bala não surtisse efeito. O missionário, de facão em mãos, parte para cima da fera, desferindo-lhe impiedosos golpes que fazem seu sangue felino jorrar. Finalmente a onça arrefece e quando o missionário retoma o fôlego, percebe que as crianças fugiram.
            ‒ We gotta catch those little bastards before they reach the village! ‒ vocifera o missionário, ao que o intérprete anui e chama o garimpeiro, seguindo o rastro das crianças.
Os três homens logo se perdem pela floresta, no que deveria ser uma trilha fácil, marcada pelo rastro de sangue do pequeno Amex.
‒ Não sei não, William, aquela onça parecia possuída por algum espírito... E agora estamos perdidos aqui nessa mata! ‒ constata o intérprete. ‒ Eu sinto que a floresta não nos quer por aqui, não quer que alcancemos as crianças. Talvez seja melhor deixá-los para trás, ninguém há de acreditar neles...
‒ Isso é tolice de índio, seu idiota! ‒ esbraveja o missionário. ‒ É da vontade de Deus que nós capturemos aqueles pestinhas, que pagarão pela sua salvação com o nobre trabalho nas minas, que há de redimir o mal inerente à sua raça! Nossos parceiros no Alabama contam com esse ouro. Eles mandarão armas e mais recursos, para que possamos salvar mais jovens órfãos como você, João, que foram abandonados pelo próprio povo, mas que graças a enviados como nós acharam o caminho do Céu!
João se cala, mas a inexplicável força que ele sente na natureza lhe diz que tudo aquilo está muito errado.
O trio continua a seguir sem rumo pela floresta cada vez mais profunda e escurecida pelas pesadas nuvens que ameaçam trazer tempestade a qualquer momento. O garimpeiro, como que para afastar o medo, resolve puxar conversa:
‒ Ei, João, pergunte aí pro gringo o que é que ele acha de Vargas. Ouvi dizer que a mineração só vai poder ser feita por gente dele.
João traduz a pergunta para William e, em seguida, transmite sua réplica:
‒ O que se passa na capital, ou melhor, no litoral, para nós dá no mesmo que nada. Aqui o que vale é a nossa lei. A lei divina. Veja que a escravidão foi proibida pela lei do homem, mas não pela lei divina. A bíblia deixa bem claro, em Levítico 25:44-46, que podemos escravizar contanto que o escravo seja oriundo das nações ao nosso redor. Nós estamos libertando almas, guiando o rebanho do senhor para o Reino dos Céus...
O garimpeiro se cala e segue caminho.
Enquanto isso, não muito distante dali...
‒ Minha perna! ‒ grita Imex, apavorado.
‒ O que foi?! ‒ volta-se Yara, aturdida, quando vê uma cobra peçonhenta fugindo para a toca.
‒ E agora? ‒ chora Amex, que já estava mancando, desesperado ao ver as marcas de picada na perna do irmão.
‒ Já estamos perto da aldeia, não podemos desistir agora! Vamos! ‒ exclama Yara, apoiando os dois irmãos pelos ombros.
O trio tortuosamente avança mais um pouco quando ouve um disparo vindo detrás: o raio passa zunindo pelo ouvido de Yara, que ensurdece por um instante. Esta se volta e avista os homens, correndo feito loucos atrás dela. Exausta, com seus irmãos feridos e incapazes de correr, a menina grita o mais alto que pode por socorro. 
‒ Pode gritar o quanto quiser, diabinha, ninguém vai te ouvir! Hahaha! ‒ berra o garimpeiro, rindo feito louco.
Don’t shoot! ‒ grita William, gesticulando para que o garimpeiro não atire. ‒ She can’t be found with a bullet wound.
‒ Não atire! ‒ traduz João, abaixando a espingarda do garimpeiro.
‒ Certo. Vamos dar um fim nessa pestinha antes que ela nos traga problemas! ‒ exclama o garimpeiro, avançando para esganar Yara.
‒ Mas o acordo era deixá-la ir para a aldeia! ‒ intervém João.
Let him finish her! She’s useless to us anyway. After he strangles her we’ll throw her to the piranhas. They will think the other little Indians met the same fate and their smaller bodies were completely devoured.  ‒ detém William, mudando de planos.
Yara, paralisada de medo, não sabe como reagir, temendo pela vida de seus irmãos, que estão nessa enrascada por culpa de sua desobediência. João não aguenta ver aquele garimpeiro imundo esganando a pobre menina na frente de seus irmãos prestes a terem uma vida de escravo como a dele, porém ainda pior, nas minas, e vira o rosto. Contudo, ele ouve vozes, incessantes, como se vindas de cada árvore, planta e animal ao seu redor... Vozes que os missionários o ensinaram a ignorar, mas que agora gritam com toda força! O jovem arrebata um pesado galho caído a seu lado e furiosamente atinge a cabeça do garimpeiro, que rola pelo chão estrebuchando de dor enquanto seu sangue quente se esvai.
You goddamn traitor! ‒ esbraveja William, sacando seu facão e partindo em direção ao jovem agora mais metuktire do que nunca.
O galho é pesado demais para atacar ou mesmo se defender dos poderosos golpes do missionário norte-americano, que brande a arma branca com notável habilidade, ferindo o braço do jovem intérprete, que deixa o galho cair, atingindo seu tórax logo em seguida.
We’ve brought you faith! We’ve brought you civilization! And look what you did to us! ‒ vocifera William, prestes a desferir o golpe de misericórdia, quando uma seta acerta sua testa em cheio.
João olha para trás, de onde veio a flecha, e identifica um grupo de caçadores menkranoti, que ouviram os gritos desesperados de Yara e vieram em seu socorro.
‒ Djãm amex? ‒ pergunta o arqueiro.
As crianças anuem, aliviadas.
‒ Jãnh ne gar mõ? ‒ pergunta outro caçador, tentando entender a situação.
‒ Onij ngôtyktikurũm ne bar mõ. Ar ije tep o idjàbirmã ne bar mõ... ‒ começa a explicar Amex o que aconteceu.

...

‒ Agora você tem um lar e um novo nome: Tàkàk! ‒ pronuncia a sorridente avó das crianças fazendo curativos nas feridas do jovem metuktire. ‒ Tal qual o festival que se inicia hoje e que terá um significado especial: o retorno das nossas crianças e do bravo guerreiro que as salvou!
As crianças se sentam ao redor do jovem, sorridentes por terem se livrado da morte certa na mão dos temíveis Kuben Kakrit. Elas hoje aprenderam uma grande lição e viveram uma história que hão de contar por gerações e gerações: sobre como o mal pode se manifestar de diversas formas e como nas adversidades, quando tudo parece perdido, a união prevalece e nos traz ajuda de onde menos esperamos.
‒ Meykomré... ‒ agradece Tàkàk, com lágrimas nos olhos. ‒ Meykomré...





07.10.16

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Uma breve história da meritocracia no Brasil


A meritocracia no Brasil começa com os portugueses, que chegaram aqui por seus próprios méritos, isto é, em embarcações fenícias, orientados por bússolas chinesas, números hindus e matemática arábica, para trazer deuses semitas, espada hitita e língua latino-mourisca, mostrando assim a superioridade europeia aos primitivos habitantes do “novo mundo”, cujos ancestrais também realizaram a incrível façanha de chegar aqui... meros vinte mil anos antes.

Conquistaram esta terra também por seus próprios méritos, retribuindo a hospitalidade tupiniquim com gripe, varíola, sarampo, difteria, catapora, peste bubônica, coqueluche, febre tifoide, tuberculose, cólera, rubéola e outras doenças somadas às guerras que eles atiçaram entre os povos rivais que aqui encontraram.  

Por seu próprio mérito descansavam enquanto chamavam de preguiçosos os sobreviventes daqueles que outrora aqui reinaram e que, escravizados juntos com os africanos, de fato construíam cidades e portos, trabalhavam lavouras, engenhos e minas.

O povo brasileiro nasceu desse grande mérito de subir na vida às custas de outrem infectando, traindo, semeando discórdia, roubando, matando, violentando e escravizando. O próprio termo “brasileiro” já denuncia: ladrão de pau-brasil ‒ e temos o dever patriótico de nos orgulhar disso.

Assim como os portugueses, nos apossamos de tecnologias alheias e as chamamos de nossas, como se tivéssemos o mérito de termos inventado o carro, o computador, a internet, o telefone, a televisão, e ainda denunciamos e duvidamos da legitimidade de um indígena que use uma dessas tecnologias, ainda que nós fumemos, comamos chocolate, masquemos chiclete, repousemos em redes e tomemos banho todos os dias como aprendemos com eles.

Aliás, talvez esse seja um dos maiores motivos do ódio que a grande maioria dos americanos tem, ainda que latente, contra os indígenas, porque eles nos lembram que embora tenhamos surgido aqui nunca seremos totalmente daqui, que somos fruto de um crime impune, uma extensão do holocausto colonizatório, que não somos nem um pouco melhores do que aqueles que nos orgulhamos tanto de termos expulsado.

O que realmente houve foi uma troca de metrópole por filial e a independência do Brasil o tornou uma colônia de si mesmo, controlada por uma corja, em sua maioria descendente dos “meritocratas” coloniais e daqueles por eles trazidos posteriormente para limpar a nação dos que verdadeiramente a construíram, com sangue, suor e lágrimas ‒ inúteis, uma vez que não mais podiam ser escravizados. Eles também estufam os peitos para dizer que chegaram aonde chegaram por seus próprios méritos.  

Meritocracia é algo lindo na teoria, mas, na prática, é como uma pessoa que adentra a sua casa dizendo ser sua amiga, apunhala pelas costas na primeira oportunidade, violenta e escraviza a sua família e a vizinha, toma tudo que é seu e se orgulha de ter subido na vida por seus próprios méritos, ainda dizendo que fez o favor de trazer a civilização e o progresso a você, primitivo selvagem inferior, que ousou viver em harmonia com a natureza ao invés de destruí-la. A meritocracia é linda na teoria porque só na teoria ela não inclui o crime.

...

O grande mérito dos europeus em sua invasão deste continente. Duvida? 
Então me explique como as populações indígenas nas colônias europeias na África e Ásia não foram varridas do mapa como as daqui uma vez que seus invasores (séculos XVIII - XX) tinham tecnologias ainda mais avançadas.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

- Ты кто?

- Кто я? Я - это вы завтра.
Как только проснётесь,
посмотрите в зеркало
Вы будзеце мною
а я вамі буду
кіраваць.

...




segunda-feira, 29 de junho de 2015

My uncle was a good person. He had a big heart.


(Sound track suggestion: Raison d'Être - Spire of Withhold)

The road was crowded with souls. Standing peacefully, listening to an inaudible speech. An angry speech. The one who brought all of them, the one with the angry, disturbed face, he, in the middle, the first of them to leave this world, the perpetrator of vengeance, stood right in the middle of that cemetery road where each soul was its own tombstone.
            It began a few days earlier, when he was at home, depressed, while his family happily watched soap operas. They did not care about him until they noticed that for each step he took he would stop and breathe deeply. They took him to the hospital, not the one where he had been treated before, no, this time they took him to a different one.
He was already intubated by the time the news reached me. We seldom saw each other, but just as soon as I heard about his state I ran for the last visit. My cousins cried helplessly as their dad was nearly gone, only breathing through a ventilator. At first it was difficult to recognize him, not because we seldom saw each other, but because his face was swollen like I had never seen happen to a human being before. They said his whole body was in such state, but I didn’t see it, for it was all covered. They said there was blood all over his body as the doctors tried to help it circulate artificially, keeping him alive for a few more days. As I stared at his nearly dead, swollen body, in induced coma, I couldn’t think about anything. My head was completely empty of thoughts, as barren as the driest of the deserts. Suddenly, I realized it was most likely the last time I’d ever see my uncle, but it was not the last time he would’ve seen me, as he couldn’t see me at all. When he saw me for the last time, cheerfully playing cards at my father’s birthday, he would never imagine the last time I would see him would be at his deathbed.
When time finally came, less than a day after, me and my sister met at father’s place. The old man could only blame our aunt, who, he said, made our uncle suffer like hell since they got married, decades ago. As if father would feed on hate he could not stop bashing his own sister, their neighbors, friends and relatives in front of us, as he would cowardly bash ourselves to them as soon as he grabbed an opportunity. He refused going to uncle’s funeral, which was going to happen in his hometown, not far away from us. I promised my sister I’d meet her the next morning to catch the bus she arranged to take friends and neighbors to the burial.
I was quite tired and had a terrible headache for the last two days in a row, so I lay down early and quickly fell asleep. I could see my uncle, alive and well, but silent. He was wearing a smoking jacket and a bow tie, things I’ve never seen on him before, and walking around my building. I tried to talk to him, but he fled. As I kept speaking, he’d go further, placing white boards standing about 1.5m (c. 5ft) from the ground, saying:

NÃO FALAR

I shut, as the sign says in Portuguese “DO NOT SPEAK”, and tried to find a way to reach him, but then the writings on the boards would change, as in a hologram, to show the words:

NÃO IR

I stopped, as the board said “DO NOT GO”, and found myself trapped in the middle of an appalling amount of boards my uncle left as he fled away. I woke up in complete darkness, hearing the storm hit the window. I drank some water and went back to sleep, as it was still only 3 in the morning. Then I saw the speech. Somehow, I managed to transport to the place my uncle was going, the road, where hundreds of souls followed him. I understood that was the near future and those were the souls of the friends and relatives who went to see his funeral. They died in a massive car accident on the road to that town during the storm and my life was spared by the signs my uncle had left. From his inaudible, angry speech I could only read one word coming from his lips: “barbeiro” – the barber.
Suddenly, my mind was invaded with a scene that happened before my own birth. In an old house made of rammed earth, in the countryside, I saw my uncle falling asleep while my aunt argued badly with him for some hogwash. She started to hit and yell at him but he wouldn’t wake up, pretending to be sleeping so she would finally quit arguing. Then she saw a barber bug on the wall and had a horrendous idea. She placed the beetle on his skin, enticing it to bite my uncle, infecting him with the Chagas disease, the one that waits in the body of men for decades until suddenly makes their heart grow and grow until it crushes the surrounding organs, curbing the blood circulation, leading ultimately to an excruciating death.
   




segunda-feira, 11 de maio de 2015

O mundo num bilhete


Movimento.
Direção.
Desejo.
Ordem.
Profissão.
Hipocrisia.
Gravidez.
Mãe.
Nascimento.
Morte.
Autoria.
Ego.
Indivíduo.
Nação.
Coletivo.
Guerra.

Tudo isso e muito mais está presente neste bilhete:





sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A raça pura no conceito de indígena no Brasil


Qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça quando você ouve a frase “raça pura”? Provavelmente você não escutou alguém vangloriando-se em público que é branco puro, ou negro puro, ou qualquer que seja sua “raça pura”. É bem provável que você tenha escutado esse termo em algum contexto relacionado a Hitler, a racismo e supremacia racial, ou seja, nada considerado bom pelo senso comum. No Brasil reina o discurso da “mestiçagem” e de que todo mundo descende de negros, indígenas (eu me recuso a usar o amplamente popularizado termo “índio” pois ele é historicamente errôneo), e brancos. Há quem diga que negros são a maioria, embora o censo do IBGE afirme que a maioria dos brasileiros se considera de “etnia” branca, como se etnia fosse cor de pele. Você pode se dizer negro, embora seu pai seja branco e sua avó indígena. Você pode se dizer branco embora sua mãe seja indígena e seu avô seja negro. Tudo, no fim das contas, depende da aparência a menos que você se considere indígena. Ser indígena não é uma questão só de aparência. Para que uma pessoa se declare indígena e assim seja reconhecida por todos, a sociedade brasileira exige um verdadeiro arsenal étnico daquele que ousa assumir-se como tal. Ela deve ter aparência indígena convincente, sim, como olhos puxados (nem muito, para não parecer oriental, nem pouco, para não fugir do padrão estereotípico), pele morena, cabelo negro e extremamente liso, de preferência longo, enfim, uma aparência que não dê vazão a dúvidas de que há algo de “não indígena” naquela pessoa, mas isso não basta. Se um indivíduo com essa aparência mora na cidade e não fala alguma língua indígena, já não pode ser considerada como tal. Se professa alguma religião não indígena então, piorou. Se não usa cocar, não pinta a pele, não usa colares nem mora no mato, quem ele é, senão um típico cidadão brasileiro?

Os cerca de 0,5% da população do Brasil que se identificam como indígenas são praticamente bastiões de um conceito que, ao menos em tese, é rechaçado e execrado pela maioria dos brasileiros, o da “raça pura”. Eles não podem dizer que têm um avô branco, uma mãe mulata ou um pai oriental e ainda assim considerarem-se indígenas. Eles não podem conversar em português com sua família e considerarem-se membros de alguma tribo. Não podem usar celular, andar de carro, votar ou trabalhar engravatados num escritório com ar-condicionado sem que duvidem de sua etnia. Em contrapartida, um indivíduo que tenha descendência indígena, europeia e africana pode se dizer negro ou branco, dependendo da característica mais visível. Contudo, o elemento indígena só é invisível enquanto termo, pois ele vive na aparência de milhões de brasileiros e nas veias de quase todos nós.

Agora suponhamos que os brasileiros de aparência indígena que vivem em cidades e não falam as línguas nem usam os adereços nem adoram os deuses dos seus ancestrais passassem a se considerar indígenas, da mesma forma que brancos, negros e orientais não precisam falar a língua de seus ancestrais nem vestir-se como eles ou seguir suas religiões para ser o que são.  A população indígena brasileira saltaria, tomando boa parte da população dita “parda” no censo. Agora imaginemos uma flexibilização nessa aparência. Digamos que qualquer pessoa com ascendência indígena possa se declarar como tal, independentemente de sua aparência, como é o caso dos maori da Nova Zelândia, dos métis do Canadá, dos tártaros na Rússia, dos negros no Brasil ou dos judeus pelo mundo. Praticamente toda a população brasileira se tornaria indígena automaticamente. Um cenário assim alteraria radicalmente todo o conceito de história do nosso país. Da mesma forma como os portugueses de hoje vivem de maneiras totalmente diferente de seus ancestrais que aqui chegaram séculos atrás, falar-se-ia da alteração pela qual o nativo deste território passou através dos tempos, adquirindo vocabulário novo de uma vasta quantidade de línguas, sendo a principal delas a portuguesa, e alterando sua aparência ao mesclar-se com outros povos, como aconteceu com os suevos na Gallaecia, como os maias no Iucatã ou com os vikings na Normandia. A diferença está em quem interpreta que papel. O indígena entrou para a história, tal como escrita pelos europeus e interpretada por nós americanos (e há aí muitas interpretações e pré-conceitos), como colonizado. Tal como, ao mesclar-se com os povos nativos, os suevos tornaram-se galegos, os maias tornaram-se maia-toltecas e os vikings tornaram-se normandos, os portugueses tornaram-se brasileiros, juntando-se ainda a essa amálgama outros povos do mundo inteiro. Por que não considerar que o indígena tornou-se brasileiro? É uma questão de ponto de vista. É uma questão de quem conta a história.




Abertura da Copa do Mundo FIFA 2014: Quem seria esse menino sem cocar, pintura e colar? Quem ele estaria representando sem tais adereços?

domingo, 27 de outubro de 2013

Vantagens de ser um zumbi



            Assistindo filmes de zumbis como A volta dos mortos vivos, Resident Evil e World War Z, cheguei à conclusão de que uma epidemia de um vírus que transforma todo mundo em morto vivo seria uma das melhores coisas que poderia nos acontecer, afinal:

Zumbis não se discriminam – Tem zumbi de todas as cores, classes, etnias e religiões, e nenhum deles fica discriminando o outro por sua origem, cor da pele, orientação sexual, time que torce, visão política, religiosa ou afins. Nem na hora de atacar um humano dito “saudável” eles brigam entre si, mas sim, cada um partilha um pedaço do corpo, trabalhando em equipe. Aliás, zumbis não atacam uns aos outros, não roubam, não estupram, não assaltam bancos, nem extorquem ninguém. Você já viu um zumbi estelionatário, passando cheque sem fundo ou desviando verba pública? Eu não.

Zumbis ajudam o meio-ambiente – Eles não usam carros ou outros veículos movidos a combustíveis fósseis, que poluem a atmosfera. Se todo mundo virasse zumbi, não teríamos mais problemas como o efeito estufa, desmatamento, poluição e o buraco na camada de ozônio. Nem mesmo engarrafamentos, acidentes aéreos e de trânsito (que matam centenas de milhares de pessoas todo ano), ou mesmo coisas mais banais mas que nos enchem o saco, como pagar IPVA, emplacamento, multas, roubo de carro dentre outras coisas que virariam passado num mundo zumbi.

Mas não para por aí. Zumbis também não estão nem aí para a sua aparência, tanto dos outros zumbis quanto dos humanos – Eles não se preocupam com moda, não gastam fortunas com cosméticos nem grifes famosas. Eles não se acham melhores que os outros por estar usando sapatos e roupas caras. Eles nem trocam de roupa! Ficam com a mesma roupa com a qual morreram, não importa se já passou da estação, se já saiu da moda, ninguém tá nem aí.

Zumbis são livres – Zumbis são o símbolo da liberdade que falamos tanto. Não só do direito de ir e vir, que a constituição brasileira garante mas que todo mundo sabe que é mentira, pois o mesmo governo pode nos prender e nos impor limites. Zumbis podem ir para qualquer lugar que lhes dê na telha, seja ele só para pessoal autorizado ou não. Zumbi não fica na prisão nem bota ninguém no xilindró. Não há barreiras para eles, nem fronteiras nem vistos. Mas a liberdade de que falo vai além disso. Zumbis não precisam trabalhar, estudar nem se apegar às amarras e aos bons costumes da sociedade que ele mesmo criou. Eles não se preocupam em “ser alguém na vida”, em estudar para conseguir um bom emprego e pagar as contas no fim do mês. Eles são livres mesmo, num sentido de que nós humanos nunca seremos.

Zumbis não usam drogas – Quer ver maior exemplo de liberdade que não precisar nem de remédios nem se viciar em drogas? Zumbis não fumam, não bebem, não cheiram, não traficam. Num mundo zumbi não haveria narcotráfico, nem o dinheiro das drogas financiaria o crime organizado. Não haveria máfia nem famílias seriam destruídas pelo vício. Nem cigarros e os males causados pela nicotina existiriam. Infrações relacionadas ao abuso de bebidas alcoólicas seriam coisa do passado. Overdose e coma alcoólico idem. Soa como um mundo ideal, não?

Comunicação universal – Os zumbis não falam nenhum idioma, mas se comunicam independente da nacionalidade e da língua falada pelo indivíduo antes de virar zumbi. Isso é uma revolução em termos de comunicação entre humanos. Não mais haveria problemas de tradução, barreiras linguísticas ou culturais, já que língua é um dos maiores vetores da cultura de um povo. Se o Mercosul ou a União Europeia ainda existissem depois de um dito apocalipse zumbi, eles seriam blocos verdadeiramente integrados. Mas não, esses blocos nem existirão, porque a integração zumbi não conhece barreiras nem acordos entre nações. Não haveria excluídos nem marginais, nem mesmo barreiras entre países ditos desenvolvidos e os ditos subdesenvolvidos.  

Por último, mas nem um pouco menos importante – Zumbis são IMORTAIS. É de se admirar que os humanos nos filmes não queiram se tornar zumbis e lutam ferozmente contra eles. Tornar-se zumbi é tornar-se imortal, o sonho de milhões de seres humanos que já se foram ou que estão hoje à míngua. Zumbis já morreram, logo, não podem mais morrer. Eles não machucam os sentimentos dos outros, logo, não tem zumbi suicida. Tampouco fazem guerras ou disputam terras. Imaginem que mesmo na ocasião da chegada de alienígenas no planeta Terra, não haveria guerra, porque os zumbis não estariam nem aí para os alienígenas (considerando os filmes em que zumbis só atacam humanos; fãs de Resident Evil podem dizer que o vírus infectam qualquer forma de vida, então, nesse caso, os alienígenas também estariam ferrados).  


            Considerando estes e outros fatores que eu posso ter me esquecido de citar, até tenho a impressão de que os governos são tão contra os zumbis, movendo seus exércitos e criando barreiras ao contágio do vírus porque eles querem impedir que um mundo ideal como o dos zumbis exista ou, talvez... volte a existir! Se pararmos para pensar, talvez, mesmo que isso pareça delírio: E se nós todos tivéssemos sido zumbis antes e houve um apocalipse humano que nos transformou todos em humanos vis, crueis, discriminatórios e egoístas, capazes das maiores atrocidades contra o próximo e outras espécies, e o vírus que nos transforma em zumbis na verdade é o antídoto?