sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Agora

Now


Neste exato momento em que você lê este texto, o acontecimento mais importante da sua vida pode estar começando em algum lugar. Longe de ser pretensioso, não, não me refiro a este texto em si, mas a algum acontecimento que principie a desencadear-se agora, sem que você saiba, mas cujas conseqüências lhe serão importantíssimas no futuro. Hoje se fala muito da crise financeira mundial, mas por maior que ela seja, ela teve um começo, um instante inicial que ocorreu e ninguém nem se deu conta. Às vezes foi um ato simples que desencadeou uma série de eventos que culminou numa enorme bola de neve, e justamente por não ter tido tamanha conseqüência em curto prazo, não chamou muita atenção. Se escarafuncharmos bem, a origem de uma crise econômica pode estar enraizada na origem da própria economia.


In this very moment you’re reading this text, the most important event of your life may be starting somewhere. I’m not being pretentious, this is not about this text itself, but rather about something that’s beginning now, without your awareness, but which consequences will be of extreme importance for you in the future. Nowadays the international financial crisis is one of the most debated issues worldwide, but no matter how big it is, it had a start, a first instant that went on and nobody paid attention. It could’ve been a simple act that brought in a sequence of events that eventually created a huge snowball, and just because it didn’t have much impact at first, didn’t call much attention. If we go further, the origin of a financial crisis may be rooted in the origins of the economy itself.


Quando assisto a uma superprodução fico imaginando quanto tempo levou para concluírem aquele filme, e mesmo antes da produção, quanto tempo levou para elaborarem o roteiro, para convencer uma grande produtora a topar a idéia. Mesmo antes, quando do simples surgimento da idéia para aquele filme. Um breve pensamento, um suspiro, um ato que levou até aquele pensamento. Pensamento que deve estar baseado em toda uma vivência e análise de fatos. É... Aquele filme novo não é tão novo assim. Ele é o resultado de um processo que levou anos, e este processo pode estar começando agora, em algum lugar, neste momento. Um cineasta pode estar tendo neste exato momento a idéia primária de um filme que você vai assistir daqui a alguns anos.


When I watch some blockbuster movie I can’t help but imagine how much time did it take to be done, and even before its production, how much time did it take for them to write down the plot, to convince a big studio for digging into it. Even earlier, when the first thought took place. A brief thought, a sigh, an act that led to that thought. A thought that is certainly based upon a lifetime experience and background analysis. Yeah... that brand new movie isn’t that new, actually. It is a result of a long process that took years, and this process may be starting right now, somewhere, at this moment. A filmmaker can be now thinking about the primary idea of a movie that you’re going to watch within a few years.


É o passado tocando o presente, que se refletirá no futuro. Este instante, por mais banal que pareça, pode ser o nascimento de alguém que daqui a décadas mudará o mundo, e aí, este momento será um passado remoto. Remoto como o momento em que nossos avós se conheceram. Remoto como seus nascimentos. Remoto como eles se virem antes de se conhecerem e nem se darem conta disso após se conhecerem de verdade, já que eram desconhecidos. Ou não.


This is when the past touches the present time, that will reflect on the future. This instant, albeit as common as it may appear, may be the birth of someone that within some decades, will change our world, and then, this moment will be a remote past. Remote like the moment when our grandparents met. Remote like their birth. Remote as when they saw each other for the first time, by chance, and as they didn’t know each other, they paid it little attention, and when they eventually met for real, they didn’t remember they had already seen each other previously, because they were strangers to each other back then. Or not.



Tão vazia e cheia de significados...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Switches

Por causa de um prego, a ferradura se perdeu.
Por causa da ferradura, o cavalo se perdeu.
Por causa do cavalo, o cavaleiro se perdeu.
Por causa do cavaleiro, a batalha se perdeu.
Por causa da batalha, o reino se perdeu.
Tudo por causa de um prego de ferradura.

For want of a nail the shoe was lost.
For want of a shoe the horse was lost.
For want of a horse the rider was lost.
For want of a rider the battle was lost.
For want of a battle the kingdom was lost.
And all for the want of a horseshoe nail.

Na minha adolescência eu costumava brincar com um programa chamado RPG Maker, que se tratava de uma ferramenta para desenvolvimento de jogos de RPG para computador. Nele era possível criar mundos inteiros cheios de personagens e aventuras, com imaginação livre. Eu passava tantas horas editando mapas, criando personagens, testando dispositivos e aplicando efeitos, que mesmo após desligar o computador, tudo aquilo ficava impregnado na minha mente, e eu começava a analisar o mundo ao meu redor do ponto de vista do RPG Maker. Cada movimento, cada acontecimento ao meu redor, todos eles tinham correspondentes naquele programa, mas o que mais me mais me encantava era um mecanismo remoto capaz de controlar eventos, chamado “Switch”.

In my adolescence I used to play with a software called RPG Maker, that was a tool for developping computer-based RPG games. With it, it was possible to create new worlds plenty of characters and adventures, releasing the imagination. I spent so many hours editting maps, creating characters, testing devices and applying effects, that even after turning off the computer, all that stuck to my mind and I started to analyze the enviroment around me in the RPG Maker’s point of view. Every movement, every event around me, all of them had their counterparts in that software, but what really got me caught was a remote mechanism able to control events, named “Switch”.

Um Switch era basicamente um ponto no mapa onde linhas de comandos eram inseridas a depender do que o usuário escolhesse. Havia comandos que eram executados assim que determinado(s) evento(s) acontecia(m), outros eram ativados automaticamente assim que se chegava ao mapa em questão, outros tinham que ser ativados diretamente pelo personagem. Os Switches podiam ser qualquer coisa, desde um item a ser coletado, a um mecanismo de controle remoto que poderia alterar todo o rumo do jogo. Voltando à analogia que eu fazia entre o RM e o mundo real (MR?), eu imaginava como seriam os switches da vida real, se eram itens invisíveis que ficavam em lugares inalcançáveis ou eram passíveis de serem identificados e alterados ao nosso bel prazer.

A Switch was basically a point on the map where lines of commands were inserted depending on the user’s choices. There were commands that were executed right when some given event(s) happened, others were activated automatically about time the character reached the map, others had to be activated directly or indirectly by the character. The Switches could be anything, from a simple item to be collected to a mechanism that would change thoroughly the destiny of the game. Going back to the analogy that I was doing between RM and the real world, I wondered how would the switches be in real life, if they were invisible items set in unreachable places or if they could be located and changed on our will.

Hoje percebo que os switches são uma realidade constante nas nossas vidas, estão ao nosso redor e são perfeitamente tangíveis, mas é necessário ter muita sabedoria para identificá-los e alterá-los à nossa vontade. Assim como os switches dos jogos de RPG, existem switches cuja ativação é automática desde quando viemos a este mundo (quando o jogo começa) e outros são ativados por ações diretas e/ou indiretas. Exemplos disso foram minhas tentativas de admissão na Universidade Federal da Bahia, onde estudo atualmente. Na primeira tentativa, fiz vestibular para Desenho Industrial e fui bem sucedido na primeira fase. Na segunda fase, compareci ao primeiro dia de provas, tudo correu bem, até que no dia seguinte – e derradeiro – meu despertador tocou uma hora atrasado (o tinha programado para despertar duas horas antes da hora da prova) e só me dei conta quando só faltavam 5 minutos para os portões se fecharem. Saí correndo de casa e quando cheguei na faculdade, me deparei com os portões fechados. Implorei para abrirem, juntei-me a outros retardatários, fomos até à reitoria, mas de nada adiantou. Perdi.

Today I realize that the switches are a constant reality in our lives, they are around us and are perfectly tangible, but it’s necessary to have much wisdom in order to identify them and change them according to our will. Just like the switches in the RPG games, there are switches which activation is automatic since we came to this world (when the game began) and others are activated by direct or indirect actions. Such examples were my attempts to get into the Federal University of Bahia, (UFBA) where I study nowadays. In the first attempt, I enrolled for Industrial Design and I succeeded on the first term admission exams. I did the exams of the second term’s first day but in the next day – and the very last one – my alarm clock rang one hour late (I had set it up for ringing two hours before the exams started) and I only noticed that when there were just 5 minutes left before the gates would close. I ran away and when I arrived at the campus, the gates were already closed. I begged the guards to let me in, I joined some other belated ones for protesting, we went to see the dean, to no vail. I lost.

Na segunda tentativa, desta vez para Letras, deu tudo certo, fui aprovado. Sentia-me de alma lavada, mas não imaginava o duro golpe que estava prestes a receber: no dia da matrícula, compareci pontualmente com os documentos, porém faltava um histórico do primeiro grau, o qual eu não achava necessário, já que eu estava com o do segundo. Não, não era o suficiente, não pude concluir a matrícula e tive que abrir um processo para entrega posterior do documento pendente na Secretaria Geral dos Cursos. Consegui o tal documento 10 dias depois, e ao entregá-lo, disseram-me que o prazo já acabara. Insisti com o processo, dei-lhes mil justificativas (a escola onde eu havia cursado o primeiro grau havia mudado de endereço, devido ao carnaval houve uma demora na confecção e entrega do histórico, não haviam me informado de prazo nenhum na faculdade, etc) mas mesmo assim indeferiram minha matrícula.

In the second attempt, this time for Languages course, I got it all smoothly, I was admitted in. Finally I venged myself, but I had no idea about the hard blow that was incoming: in the registration day, I went there with all the documents at the right time but there was a paper missing, my primary school’s certificate, which I didn’t find necessary for bringing in because I had brought the secondary school’s one, but no, it wasn’t enough for them, and I couldn’t finish my registration and I had to start a process for delivering the missing document later on. I got the missing document 10 days later, and when I gave them it, they said the deadline was over. I kept the process going on, I justified myself with many reasons (the school where I had studied changed place, due to the carnival it took 10 days for them to give me the paper, and nobody had told me about any deadline for delivering it to the University, etc) but nevertheless, they denied my registration.

Na terceira tentativa, fui novamente aprovado no vestibular e no dia da matrícula levei todos os documentos requeridos, ou pelo menos eu achava. No ato da matrícula me pediram o certificado de votação do primeiro e segundo turnos, dos quais eu só levara o do segundo. Parecia que aquele pesadelo ia acontecer mais uma vez, mas por nada no mundo eu poderia deixar isso assim. Fui em casa, a alguns quilômetros da faculdade e peguei o certificado do primeiro turno, levando-o e efetuando a matrícula.

In the third attempt, I was approved once again in the exams, and on the registration day I took all the required documents, or so I thought. Upon the registration, they asked me for a certificate of vote on the previous ellections, first and second turns, but I had only the second turn’s one with me at that moment. I felt like all that nightmare was coming back again, but then, for nothing in the world I would let that happen again. I went back home, couple of kilometers away, found the certificate of the first turn and went back to the University, accomplishing the registration.

Acontece que na época eu trabalhava num resort, a 30km de casa, e havia recebido uma proposta para trabalhar num albergue muito mais próximo, com um salário razoável. O problema é que eu estava prestes a ser promovido no resort e não tinha certeza se queria trocar o certo pelo duvidoso, indo para aquele albergue que pouco adicionaria à minha carreira profissional, em comparação ao resort cinco estrelas all-inclusive onde eu trabalhava. Resolvi decidir minha situação na referida matrícula; se eu estudasse de manhã, não conseguiria conciliar com o trabalho, já que eu não conseguiria chegar nos horários, além de chegar muito cansado, assim, poderia trabalhar no albergue pela tarde. Se eu estudasse de tarde, poderia continuar no resort, e não conseguiria conciliar meus horários com os do albergue. Minha vontade era de estudar de manhã e trabalhar perto de casa, além do albergue ter aparência bem mais jovial onde eu poderia ter contato com muita gente interessante, diferentemente da recepção do resort, que era em escala industrial e eu trabalhava sob muita pressão. Mas eis que o que aconteceu: o certificado de votação, um papel minúsculo, determinou os rumos da minha vida naquele momento. Se eu o tivesse no primeiro momento, teria efetuado a matrícula no matutino, assim saindo do emprego e entrando num outro. Mas não foi isso que aconteceu.

What happened, though, was that I worked at a resort back then, about 30km far away from my house, and I had been invited for working at a hostel much closer to my house, for a nice salary. The problem was that I was about to get a promotion and didn’t wanna leave all that I had achieved so far for leaping into an unknown direction, working at that hostel that wouldn’t add very much importante to my professional carreer, compared to the 5 stars all-inclusive resort where I was working. I decided to make up my mind depending on how the registration would go: if I studied on the morning, I wouldn’t be able to deal with University and my job together, because I couldn’t arrive in time, and I’d be very tired, thus, I could work at the hostel on the afternoon. If I studied on the afternoon, I could stay at the resort, for I wouldn’t be able to conciliate my studies with the hostel shifts. I wished to study on the morning and work near home, besides, the hostel seemed quite nice and cheerful where I could get in touch with interesting people, unlike at the reception of the resort which was in industrial scale and I worked under heavy pressure. But here’s what happened, the vote certificate, a petite piece of paper, determined the course of the events in that moment. If I had it at the very first moment of the registration, I would enroll for the morning classes, thus, quiting my job and joining the other. But that’s not what happened.

Da mesma forma, um certificado escolar determinou minha vida na segunda tentativa; de forma igualmente dramática, meu ingresso na faculdade demandou minha saída do flat onde eu trabalhava na época, e com o fracasso ocorrido na matrícula, perdi tudo de maior que eu já havia conquistado sozinho até então, faculdade e emprego. Da mesma forma um simples relógio barato decretou o meu fracasso no primeiro vestibular. Não fosse ele, talvez eu tivesse sido aprovado e estivesse cursando meu quarto ano agora.

Likewise, a school certificate determined my life in the second attempt, just as dramatically; my enrollment at the university demanded me to quit the job I had back then, at a Flat, and with the failure at the registration, I lost all the greatest achievements so far I had done on my own, university and job. In the same way, a cheap alarm clock determined my failure at the first attempt. Had it not happened, maybe I could have been approved and would be now entering my fourth period.

Estes são alguns exemplos de switches da vida real que tiveram grandes impactos na minha vida – um relógio despertador, um histórico escolar e um certificado de votação de dimensões 5x3cm. Imagine quantas pessoas deixei de conhecer – e quantas conheci – por causa desses acontecimentos. Imagine quantas coisas poderiam ter acontecido – e tantas outras que aconteceram – devidas a isso. Esses itens que nos rodeiam, pessoas, coisas, idéias, tudo isso é switch, todos são mecanismos que determinam os rumos da nossa história, com diferentes impactos.

These are just a few examples of real life switches that had great impacts in my life – an alarm clock, a school certificate and a vote certificate measuring 5x3cm. Imagine how many people I didn’t meet – and how many I met – because of this. Imagine how many things could have happened – and how many others happened – due to that. These items around us, people, things, ideas, all of them are switches, all of them are mechanisms that determine the course of our history, with different impacts.

Este conceito que aqui denomino de “Switches” servindo de analogia ao RPG Maker, na verdade é muito antigo. Uns o determinam de “Efeito Borboleta”, ou o detém na forma de um provérbio, o qual inicia este texto, que o explica sumariamente de uma forma muito mais concisa do que aqui o faço. Não importa a nomenclatura, apenas abra seus olhos e tente enxergá-los. Seu futuro é alicerçado em pequenos fragmentos que o rodeiam no presente...

This concept that here I name “Switches” as an analogy to RPG Maker is actually quite old. Some called it “Butterfly effect”, or boil it down to a proverb, which can be seen in the begining of this text, that resumes in a much shorter and precise way than what I try to explain here. No matter the nomenclature, just open your eyes and try to see them. Your future is rooted in small fragments located around you in the present time...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Fim

Havia fractais nos céus. Sol, Lua e estrelas sumiram. Já não era noite nem dia em lugar algum, apenas fractais enormes podiam ser vistos num céu longínquo. Aleijados voltaram a andar, cegos passaram a enxergar, pacientes em coma voltaram à consciência, idosos rejuvenesciam. Em transe, todos os seres humanos sumiram sem deixar rastros.


There were fractals in the skies. Sun, Moon and stars vanished. There was neither light nor day anywhere any longer, just enormous fractals could be seen in a distant sky. Lames could walk again, blind ones could see, patients in coma woke up, the elderly became youth. In trance, all the human beings disappeared without leaving any traces.


Em algum lugar do tempo e espaço, a Luz irradiava por toda parte e ganhava rosto. À sua frente, bilhões de seres pequeninos se reuniam, esperando por outros bilhões que para ali iriam. Eles não conversavam entre si, porque já sabiam tudo; não tinham ansiedade de encontrar aqueles que estavam por vir, ainda que, quando encarnados, tivessem.


Somewhere in the time and space, the Light irradiated all over and gained face. Before it, billions of small beings reunited, waiting for billion others that were to come. They didn’t talk amongst themselves, because they already knew everything; they had no anxiety for meeting the newcomers, albeit, when they were incarnated, they had.


Ali era o fim da vida, da morte, da tristeza, da alegria, era simplesmente o fim de tudo. Era ali que a matéria animada que se autodenominava de “seres humanos” terminava a sua jornada. Um a um, bilhões deles acordavam do transe e se deparavam com seus ancestrais que os aguardavam em silêncio. Ali todos obtinham a resposta para suas perguntas. A Luz fulgurava cada vez mais forte até engolir todos.


That place was the end of life, of death, of sadness, of happiness, it was simply the end of everything. It was where that animated matter that called itself “human beings” end their journey. Each one of the billions of beings woke up from their trance and faced their ancestors that were waiting for them in silence. There, all could answer their questions. The Light fulgurated more and more until it swallowed everyone.


Chegava a hora de transformar aquela energia luminosa em energia cinética, térmica, mecânica, viva. Dela, corações nascerão e bombearão, imbuídos de novos conhecimentos das vivências obtidas, nascerão novos seres mais evoluídos. A Luz estendeu seus raios às partes mais longínquas das galáxias, e em cada um de seus destinos, novas odisséias começam.


Now was the time to transform all that luminous energy into kinetic, thermal, mechanical, living energy. From it, hearts will be born and pump, endowed with new knowledge gained from their previous experiences, new and more evolved beings will be born. The Light extended its beams towards the farthest places of the galaxies, and in each one of its destinations, new odysseys begin.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Consciência temporal

O Século XX foi um período de enormes transformações no cenário mundial. Num período de 100 anos muita coisa mudou. Mas e antigamente, como na pré-história, por exemplo? 100 anos para os povos da idade da pedra não representariam nem um dia de avanços tecnológicos para a sociedade globalizada de hoje, ainda que as medidas de tempo sejam as mesmas. Veja os povos da chamada América pré-Colombiana. A grande maioria dos seus indivíduos viveu e morreu antes de terem tido qualquer tipo de contato com o resto do mundo. Qual seria o conceito de mundo para esses indivíduos? Aqueles astecas que não viveram até a chegada dos espanhóis provavelmente nunca imaginariam a catástrofe que iria acontecer. Esses mundos temporais gerados no consciente coletivo até a hora da morte encerrando-se aí o conceito de nacionalidade histórica, como um asteca do século XIV e um mexicano atual. Mesmo sendo do mesmíssimo lugar, ambos os indivíduos são tão estrangeiros entre si quanto se tivessem nascido em lados opostos do globo.


Todo o conceito de identidade que temos é composto por um período histórico que pode mudar com o passar do tempo. Assim, nada é real, como hoje afirmo que o Brasil é a minha pátria, o mesmo não existia há alguns séculos atrás, e nada garante que ele exista num futuro distante. Tudo o que escrevo aqui poderá ser ininteligível ou mesmo inverossímil num futuro indeterminado.


A fonte dessa relatividade, em que tudo é incerto e temporal é que tudo vem da mesma origem, somos um ciclo de intermináveis transformações que vem da matéria que forma este plano de existência. A vida consiste em transformar pó em carne, carne em pensamentos, pensamentos que perscrutam a própria carne, o pó e a vida. A matéria que constitui tudo neste planeta pode ser transformada em qualquer coisa, e é nisso que gastamos toda nossa vida pesquisando e interagindo, transformando matéria em alguma coisa que nos convém. Há um pouco de cada coisa que me manteve e mantém vivo até hoje nestas letras, querendo ou não. A matéria é tão relativa que pode ser simplesmente qualquer coisa, e nós como tolos achamos que podemos controlá-la, escolhendo nomes, definindo-a em verbetes, classificando-a e delimitando-a como se houvesse algo além dela. Neste plano de existência a matéria por mais diversa que pareça é igualmente instável e relativa, sempre em transformação.


A morte é o epílogo da interpretação que fizemos deste mundo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Fluência - Pt. 3

2. Várias formas de se dizer a mesma coisa

Com o aprendizado de vários idiomas percebi uma estratégia interna que todos nós usamos ainda que sem perceber, mesmo em nossas línguas maternas, e que faz parte do desenvolvimento das habilidades lingüísticas de estudantes de língua estrangeira, a de usar de diversos caminhos para se dizer a mesma coisa. No caso de um falante de língua estrangeira que não se lembre ou desconheça um termo ou uma expressão naquele idioma, se ele tiver uma boa fluência, aliada a um bom vocabulário, ele certamente achará uma maneira de dizer aquilo que deseja, exemplo: ao desconhecer a palavra “sereia”, mas conhecendo palavras equivalentes a “mistura”, “mulher”, “peixe”, etc, o falante será bem sucedido em entregar sua mensagem “mistura de mulher com peixe”, a qual será facilmente entendida pelo receptor. Quanto maior o léxico do estudante, mais formas ele encontrará de dizer o que quer e menos esforço ele terá de fazer para isso, até porque, se ele alcança um vocabulário cada vez maior isso se deve a um contato crescente com o idioma. Na verdade, isso funciona da mesma forma com falantes nativos. O fato é que o nativo tem o léxico tão abrangente que dificilmente tem dificuldades de achar meios de dizer o que pensa, e por estar sempre o usando, acha as palavras mais facilmente. O falante não-nativo tem dificuldade em ambas as coisas, contudo, quando este consegue achar ao menos uma forma de dizer cada coisa que pensa, nas mais variadas situações, pode-se dizer que este alcançou a fluência, se devidamente munido de conhecimentos gramaticais, ortográficos, fonéticos adequados.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Fluência - Pt. 2

1.2. Fluência mental


Ainda abordando a tese sobre fluência, mas já no campo mental e não mais verbal, constatei tão logo que atingi a fluência do inglês que na verdade a fluência primeiro vem na mente para depois se estender à fala. O estudante, nos seus primeiros passos, atrela muito a língua que aprende à sua língua materna, ou outra de grande proficiência, de maneira que ao tentar se comunicar naquela língua, é comum ocorrer uma breve (às vezes nem tanto) tradução mental, onde o pensamento (o que se quer dizer) vem na língua materna para depois ser traduzido para a língua em questão e em seguida ser exteriorizado. Quanto mais rápido é esse processo, mais próximo da fluência o estudante se encontra, até chegar um ponto em que o cérebro já foi tão exposto e já tem um conhecimento tão amplo da língua que ele já consegue converter seus pensamentos naquela linguagem e automaticamente exteriorizá-la; é quando o cérebro adquire uma outra linguagem que então podemos falar fluentemente. É importante notar a relação entre a carga lexical a qual o cérebro deve receber para chegar a tal ponto e o léxico do próprio falante, ou seja, o falante fluente nasce quando seu cérebro já foi suficientemente “bombardeado” por aquele idioma, proporcionando-lhe assim material suficiente para se expressar sem ajuda da língua primária.


Há um ditado que afirma que quanto mais línguas se sabe, mais facilmente se aprende outras. Ao chegar à fluência de outras línguas, como espanhol e italiano, cheguei a essa mesma conclusão. O mecanismo desenvolvido pelo meu cérebro anteriormente com a experiência da língua Inglesa parece ter ampliado a minha capacidade de pensar em outros idiomas, ou seja, o cérebro adquiria mais facilmente outras linguagens valendo-se da mesma plataforma construída pela língua Inglesa. É certo que a proximidade das línguas latinas à minha língua vernácula foi um acelerador deste processo, mas o mesmo pude notar com idiomas diversos com os quais tive algum contato a nível de aprendizado, como norueguês por exemplo. Antes, quando meu cérebro só entendia português, tudo que eu enxergava ou escutava em línguas estrangeiras era passado por uma espécie de triagem, onde eu refletia se já havia visto aquela palavra antes, e se eu sabia o seu significado, traduzindo-a, se possível. Também acontecia de, ao não poder traduzir a palavra, meu cérebro aproximá-la da palavra mais próxima possível na minha mente, o que é muito comum principalmente com línguas latinas, são os chamados “cognatos/falsos amigos”, onde por desconhecermos o termo, o processamos com o que mais se aproxima. Atualmente, ao ver termos conhecidos mesmo que nas mais diversas línguas eu posso compreendê-los instantaneamente, como se fossem parte de um amplo vocabulário na minha mente.


Isso tem se intensificado cada vez mais, com o passar do tempo. Percebo que é como se minha mente agora não tivesse mais uma linguagem primária ou secundária, mas uma única linguagem que abrange todos os signos grafofonológicos na minha mente. Mais do que isso, é como se agora eu só compreendesse uma língua, e me expressasse em cinco (Português, Inglês, Espanhol, Italiano e Francês) além de termos soltos de diversas línguas com as quais já tive algum contato (Russo, Latim, Norueguês, Polonês, Romeno, Mandarim, Árabe, Sânscrito, Nahuatl, Quéchua, Alemão, Japonês, Urdu, etc). Assim como acontece com nossa língua vernácula, acontece de esquecermos uma ou outra palavra, confundir significados, etc, e isso também se aplica a esse mega vocabulário gerado em minha mente, com verbetes das mais diversas origens. Os termos de uso mais corrente e de vocabulário mais abrangente são os mais facilmente lembrados (1º - Português, 2º - Inglês...), o que ainda gera uma tênue divisão baseada na “etimologia” dos verbetes.


Esse processo mental de fluência, no meu caso, foi marcante em determinadas situações que me deram um vislumbre mais preciso de como isso funciona: para cada língua que aprendi, houve uma ocasião em que eu involuntariamente só conseguia pensar no idioma que eu estava aprendendo, ou seja, meus pensamentos surgiam na língua que eu aprendia na época, e por mais que eu tentasse, não conseguia pensar em outra língua, sequer a Portuguesa. À parte de ser uma experiência bizarra e de certa forma constrangedora, pois eu me sentia incapaz de comunicar-me na minha própria língua, foi algo extremamente interessante e até hoje inexplicável. Como é difícil chegar à conclusão de quando se adquire a fluência de uma língua, elegi essas ocasiões para tal, ainda que de forma simbólica, pois foram as ocasiões nas quais pela primeira vez “pude” (involuntariamente) coordenar todos os meus pensamentos nas línguas em questão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Fluência - Pt. 1

Algumas conclusões às quais cheguei aprendendo idiomas:


1. O Conceito de Fluência.

Antigamente eu achava que falar fluente era o mesmo que falar como um nativo, o que não é bem verdade. O fato é que o falante nativo se identifica patrioticamente com determinado local, partilhando assim de sua história, cultura e tradições. Um exemplo disso é a diversidade de certas línguas como o português, onde dois falantes nativos, um brasileiro e um português desconheceriam muitas das particularidades culturais do país de cada um, como o nome de um personagem de determinado programa de TV, ou o nome de determinado prato típico, por exemplo. Dessa forma, num âmbito mais específico, mesmo falantes nativos divergem e ignoram aspectos culturais e históricos do outro, chegando mesmo a impedir a comunicação plena entre ambos. Ainda sobre essa questão, pode-se observar num mesmo país, numa determinada sociedade, como a brasileira, diferentes níveis de conhecimento lingüístico, mesmo entre falantes nativos conterrâneos, como comparar um bóia-fria que nunca pôde ir à escola nem teve quem o instruísse, e um doutor em letras vernáculas pela melhor universidade do gênero no país. Ambos são nativos, mas fica claro que a bagagem lingüística e literária do outro, principalmente nos aspectos da norma culta seria muito mais evoluída que a do primeiro.

Ao chegar à fluência da língua inglesa, primeira língua estrangeira que aprendi, descobri que na verdade fluência era mais simples do que eu pensava; como o próprio nome diz, é quando a fala “flui”, sustentando uma comunicação bem-sucedida no idioma em questão, sem prender-se demasiadamente a questões como pronúncia, norma culta e escrita; assim, o que mais é importante para se chegar a uma boa fluência num idioma é ter um bom vocabulário para assim poder expressar-se e compreender, ter bons conhecimentos da gramática para saber como coordenar esse volume de vocábulos, ter uma pronúncia clara ainda que com sotaque, além de uma boa audição para poder compreender o que se escuta, o que exige muito treinamento e exposição ao idioma em questão. Isto é claro sem mencionar a parte escrita, o que também exige muito treinamento e conhecimentos de ortografia apurados, uma boa escrita e um hábito de leitura corrente também são fundamentais.

O que quero dizer é que a fluência depende do ritmo que leva uma conversação em diversos tipos de situações em dado idioma. Se duas pessoas conseguem estabelecer comunicação verbal sem problemas, com fluência na fala e audição, elas são fluentes, ainda que não nativas. Como afirmei acima, o nativo além de comunicar-se fluentemente identifica-se a um local ou comunidade específica, conhecendo então peculiaridades inerentes àquela esfera em que vive. O estudante dificilmente chega a este nível apenas com o estudo à distância, necessitando então de uma vivência num local onde o idioma em questão seja falado correntemente. Para encerrar, gostaria de citar uma frase de uma amiga minha italiana: “Solo impari una lingua vivendola” (Só se aprende uma língua vivenciando-a).