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domingo, 7 de dezembro de 2008

Fluência - Pt. 3

2. Várias formas de se dizer a mesma coisa

Com o aprendizado de vários idiomas percebi uma estratégia interna que todos nós usamos ainda que sem perceber, mesmo em nossas línguas maternas, e que faz parte do desenvolvimento das habilidades lingüísticas de estudantes de língua estrangeira, a de usar de diversos caminhos para se dizer a mesma coisa. No caso de um falante de língua estrangeira que não se lembre ou desconheça um termo ou uma expressão naquele idioma, se ele tiver uma boa fluência, aliada a um bom vocabulário, ele certamente achará uma maneira de dizer aquilo que deseja, exemplo: ao desconhecer a palavra “sereia”, mas conhecendo palavras equivalentes a “mistura”, “mulher”, “peixe”, etc, o falante será bem sucedido em entregar sua mensagem “mistura de mulher com peixe”, a qual será facilmente entendida pelo receptor. Quanto maior o léxico do estudante, mais formas ele encontrará de dizer o que quer e menos esforço ele terá de fazer para isso, até porque, se ele alcança um vocabulário cada vez maior isso se deve a um contato crescente com o idioma. Na verdade, isso funciona da mesma forma com falantes nativos. O fato é que o nativo tem o léxico tão abrangente que dificilmente tem dificuldades de achar meios de dizer o que pensa, e por estar sempre o usando, acha as palavras mais facilmente. O falante não-nativo tem dificuldade em ambas as coisas, contudo, quando este consegue achar ao menos uma forma de dizer cada coisa que pensa, nas mais variadas situações, pode-se dizer que este alcançou a fluência, se devidamente munido de conhecimentos gramaticais, ortográficos, fonéticos adequados.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Fluência - Pt. 2

1.2. Fluência mental


Ainda abordando a tese sobre fluência, mas já no campo mental e não mais verbal, constatei tão logo que atingi a fluência do inglês que na verdade a fluência primeiro vem na mente para depois se estender à fala. O estudante, nos seus primeiros passos, atrela muito a língua que aprende à sua língua materna, ou outra de grande proficiência, de maneira que ao tentar se comunicar naquela língua, é comum ocorrer uma breve (às vezes nem tanto) tradução mental, onde o pensamento (o que se quer dizer) vem na língua materna para depois ser traduzido para a língua em questão e em seguida ser exteriorizado. Quanto mais rápido é esse processo, mais próximo da fluência o estudante se encontra, até chegar um ponto em que o cérebro já foi tão exposto e já tem um conhecimento tão amplo da língua que ele já consegue converter seus pensamentos naquela linguagem e automaticamente exteriorizá-la; é quando o cérebro adquire uma outra linguagem que então podemos falar fluentemente. É importante notar a relação entre a carga lexical a qual o cérebro deve receber para chegar a tal ponto e o léxico do próprio falante, ou seja, o falante fluente nasce quando seu cérebro já foi suficientemente “bombardeado” por aquele idioma, proporcionando-lhe assim material suficiente para se expressar sem ajuda da língua primária.


Há um ditado que afirma que quanto mais línguas se sabe, mais facilmente se aprende outras. Ao chegar à fluência de outras línguas, como espanhol e italiano, cheguei a essa mesma conclusão. O mecanismo desenvolvido pelo meu cérebro anteriormente com a experiência da língua Inglesa parece ter ampliado a minha capacidade de pensar em outros idiomas, ou seja, o cérebro adquiria mais facilmente outras linguagens valendo-se da mesma plataforma construída pela língua Inglesa. É certo que a proximidade das línguas latinas à minha língua vernácula foi um acelerador deste processo, mas o mesmo pude notar com idiomas diversos com os quais tive algum contato a nível de aprendizado, como norueguês por exemplo. Antes, quando meu cérebro só entendia português, tudo que eu enxergava ou escutava em línguas estrangeiras era passado por uma espécie de triagem, onde eu refletia se já havia visto aquela palavra antes, e se eu sabia o seu significado, traduzindo-a, se possível. Também acontecia de, ao não poder traduzir a palavra, meu cérebro aproximá-la da palavra mais próxima possível na minha mente, o que é muito comum principalmente com línguas latinas, são os chamados “cognatos/falsos amigos”, onde por desconhecermos o termo, o processamos com o que mais se aproxima. Atualmente, ao ver termos conhecidos mesmo que nas mais diversas línguas eu posso compreendê-los instantaneamente, como se fossem parte de um amplo vocabulário na minha mente.


Isso tem se intensificado cada vez mais, com o passar do tempo. Percebo que é como se minha mente agora não tivesse mais uma linguagem primária ou secundária, mas uma única linguagem que abrange todos os signos grafofonológicos na minha mente. Mais do que isso, é como se agora eu só compreendesse uma língua, e me expressasse em cinco (Português, Inglês, Espanhol, Italiano e Francês) além de termos soltos de diversas línguas com as quais já tive algum contato (Russo, Latim, Norueguês, Polonês, Romeno, Mandarim, Árabe, Sânscrito, Nahuatl, Quéchua, Alemão, Japonês, Urdu, etc). Assim como acontece com nossa língua vernácula, acontece de esquecermos uma ou outra palavra, confundir significados, etc, e isso também se aplica a esse mega vocabulário gerado em minha mente, com verbetes das mais diversas origens. Os termos de uso mais corrente e de vocabulário mais abrangente são os mais facilmente lembrados (1º - Português, 2º - Inglês...), o que ainda gera uma tênue divisão baseada na “etimologia” dos verbetes.


Esse processo mental de fluência, no meu caso, foi marcante em determinadas situações que me deram um vislumbre mais preciso de como isso funciona: para cada língua que aprendi, houve uma ocasião em que eu involuntariamente só conseguia pensar no idioma que eu estava aprendendo, ou seja, meus pensamentos surgiam na língua que eu aprendia na época, e por mais que eu tentasse, não conseguia pensar em outra língua, sequer a Portuguesa. À parte de ser uma experiência bizarra e de certa forma constrangedora, pois eu me sentia incapaz de comunicar-me na minha própria língua, foi algo extremamente interessante e até hoje inexplicável. Como é difícil chegar à conclusão de quando se adquire a fluência de uma língua, elegi essas ocasiões para tal, ainda que de forma simbólica, pois foram as ocasiões nas quais pela primeira vez “pude” (involuntariamente) coordenar todos os meus pensamentos nas línguas em questão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Fluência - Pt. 1

Algumas conclusões às quais cheguei aprendendo idiomas:


1. O Conceito de Fluência.

Antigamente eu achava que falar fluente era o mesmo que falar como um nativo, o que não é bem verdade. O fato é que o falante nativo se identifica patrioticamente com determinado local, partilhando assim de sua história, cultura e tradições. Um exemplo disso é a diversidade de certas línguas como o português, onde dois falantes nativos, um brasileiro e um português desconheceriam muitas das particularidades culturais do país de cada um, como o nome de um personagem de determinado programa de TV, ou o nome de determinado prato típico, por exemplo. Dessa forma, num âmbito mais específico, mesmo falantes nativos divergem e ignoram aspectos culturais e históricos do outro, chegando mesmo a impedir a comunicação plena entre ambos. Ainda sobre essa questão, pode-se observar num mesmo país, numa determinada sociedade, como a brasileira, diferentes níveis de conhecimento lingüístico, mesmo entre falantes nativos conterrâneos, como comparar um bóia-fria que nunca pôde ir à escola nem teve quem o instruísse, e um doutor em letras vernáculas pela melhor universidade do gênero no país. Ambos são nativos, mas fica claro que a bagagem lingüística e literária do outro, principalmente nos aspectos da norma culta seria muito mais evoluída que a do primeiro.

Ao chegar à fluência da língua inglesa, primeira língua estrangeira que aprendi, descobri que na verdade fluência era mais simples do que eu pensava; como o próprio nome diz, é quando a fala “flui”, sustentando uma comunicação bem-sucedida no idioma em questão, sem prender-se demasiadamente a questões como pronúncia, norma culta e escrita; assim, o que mais é importante para se chegar a uma boa fluência num idioma é ter um bom vocabulário para assim poder expressar-se e compreender, ter bons conhecimentos da gramática para saber como coordenar esse volume de vocábulos, ter uma pronúncia clara ainda que com sotaque, além de uma boa audição para poder compreender o que se escuta, o que exige muito treinamento e exposição ao idioma em questão. Isto é claro sem mencionar a parte escrita, o que também exige muito treinamento e conhecimentos de ortografia apurados, uma boa escrita e um hábito de leitura corrente também são fundamentais.

O que quero dizer é que a fluência depende do ritmo que leva uma conversação em diversos tipos de situações em dado idioma. Se duas pessoas conseguem estabelecer comunicação verbal sem problemas, com fluência na fala e audição, elas são fluentes, ainda que não nativas. Como afirmei acima, o nativo além de comunicar-se fluentemente identifica-se a um local ou comunidade específica, conhecendo então peculiaridades inerentes àquela esfera em que vive. O estudante dificilmente chega a este nível apenas com o estudo à distância, necessitando então de uma vivência num local onde o idioma em questão seja falado correntemente. Para encerrar, gostaria de citar uma frase de uma amiga minha italiana: “Solo impari una lingua vivendola” (Só se aprende uma língua vivenciando-a).