quarta-feira, 3 de março de 2010

O passado


Em algumas línguas indígenas americanas, como Tupi e Mapuche (Chile), só há um tempo verbal, o pretérito. Enquanto que no português e outras línguas há presente(s) e futuro(s), nelas, as ações são todas descritas no passado. Como isso funciona na prática eu não sei, mas a lógica é bem simples, se comparar com a nossa língua: o que é o presente? O que é o futuro? O momento em que você começou a ler este texto, alguns segundos atrás, já é passado, aliás, o momento em que você está lendo esta palavra “passado”, já é passado agora mesmo. Entendeu? E o que você vai ler daqui a alguns segundos, que neste momento é futuro, já virou presente no momento em que você o leu e agora já é passado, ou seja, o que importa mesmo é o passado, pois futuro e presente uma hora acabam, mas o passado é eterno.

Isso me faz lembrar um texto que eu mesmo escrevi, variáveis de tempo e espaço:

O tempo existe apenas para quem pode senti-lo, afinal, o que nos faz percebê-lo é o envelhecimento de nossos corpos e do ambiente ao nosso redor, os ciclos de nascimento, amadurecimento e morte, os movimentos de rotação e translação, mas no fim das contas, os dias são essencialmente iguais.

Somos como aquele pontinho que viaja pela barrinha do youtube, ou qualquer programa de reprodução de músicas. A música está ali, sem início, meio e fim, quieta, no lugar dela, e nós a tocamos e vemos seu tempo de duração passar, indo do início ao fim da barra. O momento atual de exibição passa tão rapidamente que é como se não existisse, em suas frações de milésimos de segundos e o que era futuro no início, após esse ponto vira passado, mas é esse processo, é essa passagem que nos faz ouvir a música como um todo.

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Quanto mais escrevo neste blog sobre esses temas, mais vejo como tudo está interligado e cada vez menos tenho a dizer...

3 comentários:

Tatiana disse...

Eu gosto do que você escreve no cruzamento da gramática e da filosofia.

777tanya disse...

(это была я)

Norma Villares disse...

Caro amigo.
O zen Budismo fala do "aqui e agora", o resto é ilusão, não existe mais e o outro não existe ainda.
Grande verdade, eu digo instigante, pois a palavra que você acabou de ler é passado. Forte, né.
Podia aprofundar sobbre esse presente do indígenas. Gostei muito.
Grande a afetuoso abraço