quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Velho é o mundo

As old as the bones of Earth*

Nós humanos temos uma capacidade engraçada de perceber as coisas como se fossem novas, sensações, lugares, pensamentos, acontecimentos, etc. Tudo parece novo, um produto novo, um serviço novo, um lugar novo, mas na verdade, este planeta tem bilhões de anos e sequer estaremos aqui até seu fim, se é que o terá.

We, human beings, have a fancy capacity of perceiving things as if they were brand new. Sensations, places, thoughts, events, etc. Everything looks like new, a new product, a new service, a new place, but the thing is that this planet is billions of years old and we won’t even be here till its very end, in the case it is even gonna have one.

A humanidade, de fato, é nova em relação à idade deste planeta, mas ainda assim, nossa história tem se extendido por milênios e praticamente nada da nossa realidade nunca foi vivenciado por nossos ancestrais antes, especialmente no campo sensorial e emocional, que é como interagimos com este mundo.

Humankind is, in fact, new, if we compare its history to the age of our planet, but even though, our history has been running for millennia and almost nothing of our reality has never really been experienced by our ancestors before, specially in the sensitive and emotive fields, that is, the way we interact with the world around us.

Eu, nos últimos meses, estive em lugares históricos de importância mundial, como Moscou e Roma e fiquei deslumbrado com o que vi, como se tudo fosse novo, pra mim. É claro que assim o é, afinal era a primeira vez que eu ia a tais lugares, mas a história que se passou nesses lugares é muito maior do que a minha vida e a de muitas gerações. Milhões de turistas como eu estiveram lá e muitos haverão de ir e experimentar o que experimentei.

In the last months, I’ve been to places historically important to the world history, such as Moscow and Rome, and I was amazed with what I saw, as if all this were new, for me. Of course it was, for it was the very first time I’ve seen these places, but the history that happened in these places is much longer than my own life and those of many generations. Millions of tourists like me have been there, and many others are to come and experience what I experienced.

O que nos faz pensar que o que nunca vimos antes nos parece novo é que não partilhamos das vivências de nossos ancestrais e o fato é que quase toda a humanidade tem menos de cem anos. Muito absorvemos dos conhecimentos das gerações anteriores, mas tudo ainda nos parece novo, sob a nossa própria ótica. O mesmo com os sentimentos. Amor, ódio, alegria, tristeza, esperança, saudade, agonia, prazer, todos são tão antigos quanto a própria raça humana, mas sempre nos parece algo novo e de nenhum modo estes mudam com o passar das gerações, porque estão sempre sendo vivenciados por novos olhares, novos corpos e novas vítimas.

What makes us think that what we’ve never seen before is really new is that we don’t share the life-time experiences of our ancestors and the fact is that almost the whole humankind is less than one hundred years old. Many things we learn from the knowledge acquired by those who lived before us, yet, everything looks new for us, when it comes to our view point. The same thing with feelings. Love, hatred, happiness, sadness, loneliness, agony, pleasure, they’re all as old as the human race, but they always looks like something new for us, and no matter how many generations are born and experience them, they don’t really change, because they’re always being experienced by new view points, new bodies and new victims.

Nossa história é meramente uma repetição do que já aconteceu antes, seja no Egito antigo, seja em Nova York, seja no subúrbio de qualquer cidade contemporânea ou nas cavernas dos primeiros Homo Sapiens. A verdade é que o que nos diferencia é apenas a tecnologia alcançada e suas consequências meramente dão novos rótulos ao que sempre existia. As necessidades são sempre as mesmas e o que está acontecendo com você agora com certeza já aconteceu com alguém antes, deve estar acontecendo com alguém também agora mesmo e há de acontecer com tantas outras no futuro. Apenas não vivenciamos essas situações por outros olhos, ficamos presos aos nossos corpos e achamos que ninguém nos entende.

Our history is merely a repetition of what happened before, either in ancient Egypt or in New York, no matter if in the ourtskirts of a contemporaneous city or within the caves of the ancient Homo Sapiens. The truth is that what differs us from each other is the technology that we develop and its consequences give no more than new labels to what already existed. The needs are always the same and what happens with you right now surely already happened with someone else before, probably is happening with someone now and shall happen with many others in the future. We just never experienced these situations through someone else’s eyes, we’re trapped inside our bodies and just think nobody understands us.


--

*Literally, the original title, in Portuguese, means “Old is the world” but I prefered to translate it using a song’s name by the band Dargaard, “As old as the bones of earth”, which fits better and brings some more information. Worth listening to.


A cópia fiz em 2007, o original é de mais de 1000 anos antes. / I drew this copy in 2007, the original one is over 1000 years older.

3 comentários:

Jozieli disse...

"Nossa história é meramente uma repetição do que já aconteceu antes (...)". Tem um livro chamado "A Insustentável Leveza do Ser", que aborda justamente a teoria do "Eterno Retorno", qual Nietzsche defende basicamente o que está presente no seu texto. Talvez você já o conheça... enfim.

Olha, gostei do que vi por aqui... Parabéns pelo blog, e obrigada pela visita.

777tanya disse...

Este é um paradoxo: você é proporcional ao planeta, mas você não o ama. Parece que você é grande, proporcional ao planeta: você tão fluentemente fala sobre espaço e tempo! E parece que você não o ama: você se recusa a considerar algo como único. Em tais casos russos podem comparar alguém com um elefante numa loja de porcelanas ("слон в посудной лавке", "этот человек как слон в посудной лавке").

teo disse...

Gostei do seu blog e gostei do que você escreve. Não parece ser ninguém posando de intelectual e escrevendo suas teorias como se fossem verdades absolutas. Parece sincero, íntimo e empírico, como se a vida fosse seu objeto de estudo, seu laboratório e as suas experiências, os fenômenos a serem estudados.
Em relação a esse texto, o que me arrepia em relação a esse mundo é a grandiosidade (em quantidade e qualidade) do conhecimento humano produzido. Me interessa também os mistérios terrestres e o passado incerto e obscuro. "O tempo é a medida da vida", quem disse isso?