sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A raça pura no conceito de indígena no Brasil


Qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça quando você ouve a frase “raça pura”? Provavelmente você não escutou alguém vangloriando-se em público que é branco puro, ou negro puro, ou qualquer que seja sua “raça pura”. É bem provável que você tenha escutado esse termo em algum contexto relacionado a Hitler, a racismo e supremacia racial, ou seja, nada considerado bom pelo senso comum. No Brasil reina o discurso da “mestiçagem” e de que todo mundo descende de negros, indígenas (eu me recuso a usar o amplamente popularizado termo “índio” pois ele é historicamente errôneo), e brancos. Há quem diga que negros são a maioria, embora o censo do IBGE afirme que a maioria dos brasileiros se considera de “etnia” branca, como se etnia fosse cor de pele. Você pode se dizer negro, embora seu pai seja branco e sua avó indígena. Você pode se dizer branco embora sua mãe seja indígena e seu avô seja negro. Tudo, no fim das contas, depende da aparência a menos que você se considere indígena. Ser indígena não é uma questão só de aparência. Para que uma pessoa se declare indígena e assim seja reconhecida por todos, a sociedade brasileira exige um verdadeiro arsenal étnico daquele que ousa assumir-se como tal. Ela deve ter aparência indígena convincente, sim, como olhos puxados (nem muito, para não parecer oriental, nem pouco, para não fugir do padrão estereotípico), pele morena, cabelo negro e extremamente liso, de preferência longo, enfim, uma aparência que não dê vazão a dúvidas de que há algo de “não indígena” naquela pessoa, mas isso não basta. Se um indivíduo com essa aparência mora na cidade e não fala alguma língua indígena, já não pode ser considerada como tal. Se professa alguma religião não indígena então, piorou. Se não usa cocar, não pinta a pele, não usa colares nem mora no mato, quem ele é, senão um típico cidadão brasileiro?

Os cerca de 0,5% da população do Brasil que se identificam como indígenas são praticamente bastiões de um conceito que, ao menos em tese, é rechaçado e execrado pela maioria dos brasileiros, o da “raça pura”. Eles não podem dizer que têm um avô branco, uma mãe mulata ou um pai oriental e ainda assim considerarem-se indígenas. Eles não podem conversar em português com sua família e considerarem-se membros de alguma tribo. Não podem usar celular, andar de carro, votar ou trabalhar engravatados num escritório com ar-condicionado sem que duvidem de sua etnia. Em contrapartida, um indivíduo que tenha descendência indígena, europeia e africana pode se dizer negro ou branco, dependendo da característica mais visível. Contudo, o elemento indígena só é invisível enquanto termo, pois ele vive na aparência de milhões de brasileiros e nas veias de quase todos nós.

Agora suponhamos que os brasileiros de aparência indígena que vivem em cidades e não falam as línguas nem usam os adereços nem adoram os deuses dos seus ancestrais passassem a se considerar indígenas, da mesma forma que brancos, negros e orientais não precisam falar a língua de seus ancestrais nem vestir-se como eles ou seguir suas religiões para ser o que são.  A população indígena brasileira saltaria, tomando boa parte da população dita “parda” no censo. Agora imaginemos uma flexibilização nessa aparência. Digamos que qualquer pessoa com ascendência indígena possa se declarar como tal, independentemente de sua aparência, como é o caso dos maori da Nova Zelândia, dos métis do Canadá, dos tártaros na Rússia, dos negros no Brasil ou dos judeus pelo mundo. Praticamente toda a população brasileira se tornaria indígena automaticamente. Um cenário assim alteraria radicalmente todo o conceito de história do nosso país. Da mesma forma como os portugueses de hoje vivem de maneiras totalmente diferente de seus ancestrais que aqui chegaram séculos atrás, falar-se-ia da alteração pela qual o nativo deste território passou através dos tempos, adquirindo vocabulário novo de uma vasta quantidade de línguas, sendo a principal delas a portuguesa, e alterando sua aparência ao mesclar-se com outros povos, como aconteceu com os suevos na Gallaecia, como os maias no Iucatã ou com os vikings na Normandia. A diferença está em quem interpreta que papel. O indígena entrou para a história, tal como escrita pelos europeus e interpretada por nós americanos (e há aí muitas interpretações e pré-conceitos), como colonizado. Tal como, ao mesclar-se com os povos nativos, os suevos tornaram-se galegos, os maias tornaram-se maia-toltecas e os vikings tornaram-se normandos, os portugueses tornaram-se brasileiros, juntando-se ainda a essa amálgama outros povos do mundo inteiro. Por que não considerar que o indígena tornou-se brasileiro? É uma questão de ponto de vista. É uma questão de quem conta a história.




Abertura da Copa do Mundo FIFA 2014: Quem seria esse menino sem cocar, pintura e colar? Quem ele estaria representando sem tais adereços?

Um comentário:

Anderson Cambises disse...

Até que fim alguém percebeu o óbvio! Eu achava que era o único.