terça-feira, 18 de agosto de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
My uncle was a good person. He had a big heart.
The road was crowded with souls. Standing peacefully,
listening to an inaudible speech. An angry speech. The one who brought all of
them, the one with the angry, disturbed face, he, in the middle, the first of
them to leave this world, the perpetrator of vengeance, stood right in the
middle of that cemetery road where each soul was its own tombstone.
It
began a few days earlier, when he was at home, depressed, while his family
happily watched soap operas. They did not care about him until they noticed
that for each step he took he would stop and breathe deeply. They took him to
the hospital, not the one where he had been treated before, no, this time they
took him to a different one.
He was already intubated by the time the news reached
me. We seldom saw each other, but just as soon as I heard about his state I ran
for the last visit. My cousins cried helplessly as their dad was nearly gone,
only breathing through a ventilator. At first it was difficult to recognize him,
not because we seldom saw each other, but because his face was swollen like I
had never seen happen to a human being before. They said his whole body was in
such state, but I didn’t see it, for it was all covered. They said there was
blood all over his body as the doctors tried to help it circulate artificially,
keeping him alive for a few more days. As I stared at his nearly dead, swollen
body, in induced coma, I couldn’t think about anything. My head was completely
empty of thoughts, as barren as the driest of the deserts. Suddenly, I realized
it was most likely the last time I’d ever see my uncle, but it was not the last
time he would’ve seen me, as he couldn’t see me at all. When he saw me for the
last time, cheerfully playing cards at my father’s birthday, he would never
imagine the last time I would see him would be at his deathbed.
When time finally came, less than a day after, me and
my sister met at father’s place. The old man could only blame our aunt, who, he
said, made our uncle suffer like hell since they got married, decades ago. As
if father would feed on hate he could not stop bashing his own sister, their
neighbors, friends and relatives in front of us, as he would cowardly bash
ourselves to them as soon as he grabbed an opportunity. He refused going to
uncle’s funeral, which was going to happen in his hometown, not far away from
us. I promised my sister I’d meet her the next morning to catch the bus she
arranged to take friends and neighbors to the burial.
I was quite tired and had a terrible headache for the
last two days in a row, so I lay down early and quickly fell asleep. I could
see my uncle, alive and well, but silent. He was wearing a smoking jacket and a
bow tie, things I’ve never seen on him before, and walking around my building.
I tried to talk to him, but he fled. As I kept speaking, he’d go further, placing
white boards standing about 1.5m (c. 5ft) from the ground, saying:
NÃO FALAR
I shut, as the sign says in Portuguese “DO NOT SPEAK”,
and tried to find a way to reach him, but then the writings on the boards would
change, as in a hologram, to show the words:
NÃO IR
I stopped, as the board said “DO NOT GO”, and found
myself trapped in the middle of an appalling amount of boards my uncle left as
he fled away. I woke up in complete darkness, hearing the storm hit the window.
I drank some water and went back to sleep, as it was still only 3 in the morning.
Then I saw the speech. Somehow, I managed to transport to the place my uncle
was going, the road, where hundreds of souls followed him. I understood that
was the near future and those were the souls of the friends and relatives who
went to see his funeral. They died in a massive car accident on the road to
that town during the storm and my life was spared by the signs my uncle had
left. From his inaudible, angry speech I could only read one word coming from
his lips: “barbeiro” – the barber.
Suddenly, my mind was invaded with a scene that
happened before my own birth. In an old house made of rammed earth, in the
countryside, I saw my uncle falling asleep while my aunt argued badly with him
for some hogwash. She started to hit and yell at him but he wouldn’t wake up,
pretending to be sleeping so she would finally quit arguing. Then she saw a
barber bug on the wall and had a horrendous idea. She placed the beetle on his
skin, enticing it to bite my uncle, infecting him with the Chagas disease, the
one that waits in the body of men for decades until suddenly makes their heart
grow and grow until it crushes the surrounding organs, curbing the blood circulation,
leading ultimately to an excruciating death.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
O mundo num bilhete
Movimento.
Direção.
Desejo.
Ordem.
Profissão.
Hipocrisia.
Gravidez.
Mãe.
Nascimento.
Morte.
Autoria.
Ego.
Indivíduo.
Nação.
Coletivo.
Guerra.
Tudo isso e muito mais está presente neste bilhete:
Retirado daqui: https://www.youtube.com/watch?v=cp15KaBMRRo (13:59)
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
A raça pura no conceito de indígena no Brasil
Qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça quando você ouve a frase “raça pura”? Provavelmente você não escutou alguém vangloriando-se em público que é branco puro, ou negro puro, ou qualquer que seja sua “raça pura”. É bem provável que você tenha escutado esse termo em algum contexto relacionado a Hitler, a racismo e supremacia racial, ou seja, nada considerado bom pelo senso comum. No Brasil reina o discurso da “mestiçagem” e de que todo mundo descende de negros, indígenas (eu me recuso a usar o amplamente popularizado termo “índio” pois ele é historicamente errôneo), e brancos. Há quem diga que negros são a maioria, embora o censo do IBGE afirme que a maioria dos brasileiros se considera de “etnia” branca, como se etnia fosse cor de pele. Você pode se dizer negro, embora seu pai seja branco e sua avó indígena. Você pode se dizer branco embora sua mãe seja indígena e seu avô seja negro. Tudo, no fim das contas, depende da aparência a menos que você se considere indígena. Ser indígena não é uma questão só de aparência. Para que uma pessoa se declare indígena e assim seja reconhecida por todos, a sociedade brasileira exige um verdadeiro arsenal étnico daquele que ousa assumir-se como tal. Ela deve ter aparência indígena convincente, sim, como olhos puxados (nem muito, para não parecer oriental, nem pouco, para não fugir do padrão estereotípico), pele morena, cabelo negro e extremamente liso, de preferência longo, enfim, uma aparência que não dê vazão a dúvidas de que há algo de “não indígena” naquela pessoa, mas isso não basta. Se um indivíduo com essa aparência mora na cidade e não fala alguma língua indígena, já não pode ser considerado como tal. Se professa alguma religião não indígena então, piorou. Se não usa cocar, não pinta a pele, não usa colares nem mora no mato, quem ele é, senão um típico cidadão brasileiro?
Os cerca de 0,5% da população do Brasil que se
identificam como indígenas são praticamente bastiões de um conceito que, ao
menos em tese, é rechaçado e execrado pela maioria dos brasileiros, o da “raça
pura”. Eles não podem dizer que têm um avô branco, uma mãe mulata ou um pai
oriental e ainda assim considerarem-se indígenas. Eles não podem conversar só em português com sua família e
considerarem-se membros de alguma tribo. Não podem usar celular, andar de
carro, votar ou trabalhar engravatados num escritório com ar-condicionado sem
que duvidem de sua etnia. Em contrapartida, um indivíduo que tenha ascendência
indígena, europeia e africana pode se dizer negro ou branco, dependendo da
característica mais visível. Contudo, o elemento indígena só é invisível
enquanto termo, pois ele vive na aparência de milhões de brasileiros e nas
veias de quase todos nós.
Agora suponhamos que os brasileiros de aparência
indígena que vivem em cidades e não falam as línguas nem usam os adereços nem adoram
os deuses dos seus ancestrais passassem a se considerar indígenas, da mesma forma que brancos, negros e orientais não precisam falar a língua de seus ancestrais nem vestir-se como eles ou seguir suas religiões para ser o que são. A população
indígena brasileira saltaria, tomando boa parte da população dita “parda” no
censo. Agora imaginemos uma flexibilização nessa aparência. Digamos que
qualquer pessoa com ascendência indígena possa se declarar como tal, independentemente
de sua aparência, como é o caso dos maori da Nova Zelândia, dos métis do
Canadá, dos tártaros na Rússia, dos negros no Brasil ou dos judeus pelo mundo. Praticamente toda a
população brasileira se tornaria indígena automaticamente. Um cenário assim
alteraria radicalmente todo o conceito de história do nosso país. Da mesma
forma como os portugueses de hoje vivem de maneiras totalmente diferente de
seus ancestrais que aqui chegaram séculos atrás, falar-se-ia da alteração pela qual
o nativo deste território passou através dos tempos, adquirindo vocabulário
novo de uma vasta quantidade de línguas, sendo a principal delas a portuguesa,
e alterando sua aparência ao mesclar-se com outros povos, como aconteceu com os
suevos na Gallaecia, com os maias no Iucatã ou com os vikings na Normandia. A
diferença está em quem interpreta que papel. O indígena entrou para a história,
tal como escrita pelos europeus e interpretada por nós americanos (e há aí muitas
interpretações e pré-conceitos), como colonizado. Tal como, ao mesclar-se com
os povos nativos, os suevos tornaram-se galegos, os maias tornaram-se maia-toltecas
e os vikings tornaram-se normandos, os portugueses tornaram-se brasileiros,
juntando-se ainda a essa amálgama outros povos do mundo inteiro. Por que não
considerar que o indígena tornou-se brasileiro? É uma questão de ponto
de vista. É uma questão de quem conta a história.
Abertura da Copa do Mundo FIFA 2014: Quem seria esse menino sem cocar, pintura e colar? Quem ele estaria representando sem tais adereços?
domingo, 27 de outubro de 2013
Vantagens de ser um zumbi
Assistindo filmes de zumbis como A volta dos mortos
vivos, Resident Evil e World War Z, cheguei à conclusão de que uma epidemia de
um vírus que transforma todo mundo em morto vivo seria uma das melhores coisas
que poderia nos acontecer, afinal:
Zumbis não se discriminam
– Tem zumbi de todas as cores, classes, etnias e religiões, e nenhum deles fica
discriminando o outro por sua origem, cor da pele, orientação sexual, time que
torce, visão política, religiosa ou afins. Nem na hora de atacar um humano dito
“saudável” eles brigam entre si, mas sim, cada um partilha um pedaço do corpo,
trabalhando em equipe. Aliás, zumbis não atacam uns aos outros, não roubam, não
estupram, não assaltam bancos, nem extorquem ninguém. Você já viu um zumbi
estelionatário, passando cheque sem fundo ou desviando verba pública? Eu não.
Zumbis ajudam o
meio-ambiente – Eles não usam carros ou outros veículos movidos a combustíveis
fósseis, que poluem a atmosfera. Se todo mundo virasse zumbi, não teríamos mais
problemas como o efeito estufa, desmatamento, poluição e o buraco na camada de
ozônio. Nem mesmo engarrafamentos, acidentes aéreos e de trânsito (que matam
centenas de milhares de pessoas todo ano), ou mesmo coisas mais banais mas que
nos enchem o saco, como pagar IPVA, emplacamento, multas, roubo de carro dentre
outras coisas que virariam passado num mundo zumbi.
Mas não para por aí.
Zumbis também não estão nem aí para a sua aparência, tanto dos outros zumbis
quanto dos humanos – Eles não se preocupam com moda, não gastam fortunas com
cosméticos nem grifes famosas. Eles não se acham melhores que os outros por estar
usando sapatos e roupas caras. Eles nem trocam de roupa! Ficam com a mesma
roupa com a qual morreram, não importa se já passou da estação, se já saiu da
moda, ninguém tá nem aí.
Zumbis são livres – Zumbis
são o símbolo da liberdade que falamos tanto. Não só do direito de ir e vir,
que a constituição brasileira garante mas que todo mundo sabe que é mentira,
pois o mesmo governo pode nos prender e nos impor limites. Zumbis podem ir para
qualquer lugar que lhes dê na telha, seja ele só para pessoal autorizado ou
não. Zumbi não fica na prisão nem bota ninguém no xilindró. Não há barreiras
para eles, nem fronteiras nem vistos. Mas a liberdade de que falo vai além
disso. Zumbis não precisam trabalhar, estudar nem se apegar às amarras e aos bons
costumes da sociedade que ele mesmo criou. Eles não se preocupam em “ser alguém
na vida”, em estudar para conseguir um bom emprego e pagar as contas no fim do
mês. Eles são livres mesmo, num sentido de que nós humanos nunca seremos.
Zumbis não usam drogas –
Quer ver maior exemplo de liberdade que não precisar nem de remédios nem se
viciar em drogas? Zumbis
não fumam, não bebem, não cheiram, não traficam. Num mundo zumbi não haveria
narcotráfico, nem o dinheiro das drogas financiaria o crime organizado. Não
haveria máfia nem famílias seriam destruídas pelo vício. Nem cigarros e os
males causados pela nicotina existiriam. Infrações relacionadas ao abuso de
bebidas alcoólicas seriam coisa do passado. Overdose e coma alcoólico idem. Soa
como um mundo ideal, não?
Comunicação universal –
Os zumbis não falam nenhum idioma, mas se comunicam independente da
nacionalidade e da língua falada pelo indivíduo antes de virar zumbi. Isso é
uma revolução em termos de comunicação entre humanos. Não mais haveria
problemas de tradução, barreiras linguísticas ou culturais, já que língua é um
dos maiores vetores da cultura de um povo. Se o Mercosul ou a União Europeia ainda
existissem depois de um dito apocalipse zumbi, eles seriam blocos
verdadeiramente integrados. Mas não, esses blocos nem existirão, porque a
integração zumbi não conhece barreiras nem acordos entre nações. Não haveria
excluídos nem marginais, nem mesmo barreiras entre países ditos desenvolvidos e
os ditos subdesenvolvidos.
Por último, mas nem um
pouco menos importante – Zumbis são IMORTAIS. É de se admirar que os humanos
nos filmes não queiram se tornar zumbis e lutam ferozmente contra eles.
Tornar-se zumbi é tornar-se imortal, o sonho de milhões de seres humanos que já
se foram ou que estão hoje à míngua. Zumbis já morreram, logo, não podem mais
morrer. Eles não machucam os sentimentos dos outros, logo, não tem zumbi
suicida. Tampouco fazem guerras ou disputam terras. Imaginem que mesmo na
ocasião da chegada de alienígenas no planeta Terra, não haveria guerra, porque
os zumbis não estariam nem aí para os alienígenas (considerando os filmes em
que zumbis só atacam humanos; fãs de Resident Evil podem dizer que o vírus
infectam qualquer forma de vida, então, nesse caso, os alienígenas também
estariam ferrados).
Considerando estes e outros fatores que eu posso ter me
esquecido de citar, até tenho a impressão de que os governos são tão contra os
zumbis, movendo seus exércitos e criando barreiras ao contágio do vírus porque
eles querem impedir que um mundo ideal como o dos zumbis exista ou, talvez...
volte a existir! Se pararmos para pensar, talvez, mesmo que isso pareça
delírio: E se nós todos tivéssemos sido zumbis antes e houve um apocalipse
humano que nos transformou todos em humanos vis, crueis, discriminatórios e
egoístas, capazes das maiores atrocidades contra o próximo e outras espécies, e
o vírus que nos transforma em zumbis na verdade é o antídoto?
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Impressões de um brasileiro na Rússia
1. A Rússia é uma federação
multicultural e multiétnica, com centenas de povos, sendo o russo eslavo apenas
uma dessas etnias (e a mais populosa).
2. “Russo”, na língua russa, tem
duas denominações. “Russkiy”, o russo eslavo, parente do polonês, do ucraniano,
etc. e “Rossiyanin”, cidadão russo de qualquer outra etnia, como os chechenos,
por exemplo.
3. Teoricamente um “russkiy”
também é “rossiyanin”, mas na prática os primeiros, em grande parte, odeiam os
segundos. O racismo é escancarado na Rússia, principalmente direcionado aos
povos do sul, como chechenos e daguestaneses, podendo se estender a outros
povos da antiga URSS, como tadjiques e azeris (veja mais sobre isso em http://www.youtube.com/watch?v=vgvOCMhm-CY).
Curiosamente, negros, por serem poucos, não são mal vistos lá, sendo até
exóticos, embora haja uma quantidade absurda de skinheads e grupos neo-nazistas
(ironicamente foi a URSS que destruiu a Alemanha Nazista, sua maior inimiga)
que também atacam negros e asiáticos.
4. Tais conflitos étnicos são mais
comuns nas grandes cidades – Moscou e São Petersburgo – para onde gente de toda
a Rússia e antiga URSS vai em busca de trabalho e melhores condições de vida.
Foi o caso da família da minha esposa, que imigrou da vizinha Belarús, para
Moscou, fugindo da crise econômica e da ditadura de Lukashenka.
5. Em Moscou tudo é muito caro, e
o salário não é necessariamente bom, por isso, para se manter, tem que
trabalhar muito. Só o aluguel do apartamento onde morávamos, um quarto e sala
no subúrbio, era de R$ 2000 por mês. Não é à toa que muita gente que tem
apartamento em Moscou, o aluga e vai morar fora, na Indonésia, por exemplo.
6. No interior, o custo de vida é
bem menor e as pessoas são bem menos estressadas e mais gentis.
7. Viajar pelo país é
relativamente barato. Os trens são muito eficientes e confortáveis, para todos
os gostos e bolsos. Trechos como Moscou – São Petersburgo podem custar dos 25
aos 700 reais, ida.
8. Apesar do seu tamanho
descomunal, a Rússia é bastante homogênea - herança da era soviética, que
queria padronizar tudo, inclusive o idioma, que quase não tem sotaques
regionais, a não ser em zonas rurais ou por falantes de russo como segunda
língua. Uma pessoa de Kaliningrado, na fronteira com a Polônia, fala igual a
uma pessoa de Vladivostok, pertinho do Japão. Os prédios residenciais são quase
todos idênticos, porque os soviéticos acreditavam ser mais fácil copiar o mesmo
modelo para todas as cidades, em grande escala.
9. O bilingualismo é forte em
certas regiões da Rússia, como no Tatarstão, onde praticamente tudo está
escrito em russo e tártaro. Entretanto, lamentavelmente, muitas outras línguas
estão em perigo de extinção, como o kareliano, falado na Karélia, território
que fazia parte da Finlândia.
10. A Rússia é dividida em vários
tipos de unidades federadas, dependendo de sua autonomia. Há repúblicas, onde
há concentração de povos que falam suas próprias línguas e professam suas
próprias religiões, como o muçulmano Tatarstão, que dominou a Rússia durante séculos, a budista Calmúquia e a animista Ossétia do Norte. Depois
vem os “ôblast”, que se assemelham ao nosso conceito de estado, os “krai”, que
literalmente significa “limite”, formam fronteiras históricas da Rússia, os
“okrug” que podem ser autônomos ou não, e os distritos federais de Moscou e São
Petersburgo, antiga capital imperial.
11. Há uma rixa entre Moscou e
Piter (como os russos em geral chamam São Petersburgo) semelhante à existente
entre Rio e São Paulo, sobretudo em tópicos culturais e políticos. A maioria
dos russos gosta mais de Piter do que de Moscou, talvez por causa do
estereótipo de que moscovitas se considerem superiores ao “resto” da Rússia.
Curiosamente é raro achar alguém em Moscou que realmente seja de Moscou.
12. Apesar do alcoolismo ser um
problema grave na sociedade russa, há muitos russos que não bebem. É proibido
beber na rua e é probida a venda de bebidas alcoólicas depois das 23h. Até a
venda de álcool hospitalar é proibida, sendo necessário trazer receita para
comprar um frasco de 100ml. Por ter acesso a álcool hospitalar, é muito comum
ver médicos alcoólatras.
13. Na Rússia não há a cultura do
barzinho, como no Brasil. Lá tavernas são poucas e caras, assim, é muito comum
ver gente bebendo na porta dos mercadinhos, nas esquinas, em parques ou no “pod’iezd”
– espaço que vai desde a entrada até as áreas comuns dos prédios, sempre de
olho na polícia, que quando aparece, pede propina. Ironicamente, vodka é uma
moeda comum de suborno.
14. Muitas dessas pessoas que
bebem na rua, escondidas, são chamadas de “gôpniki”, da sigla para “Abrigo
Estatal do Proletariado” (GOP, em russo), originalmente localizado em São
Petersburgo, nos tempos da revolução, uma espécie de Cidade de Deus russa. Os
gôpniki são jovens geralmente vistos agachados nas esquinas de prédios e
parquinhos, comendo sementes de girassol, usando versões falsificadas de roupas
esportivas da Adidas, Nike, Puma, etc, e frequentemente com o olho roxo ou
outros sinais de briga pelo corpo. Eles em geral pedem “emprestado” seu
celular, boné ou qualquer outro objeto de valor, podendo ser perigosos.
15. Outros tipos perigosos russos
são os torcedores de futebol, que quase sempre são neo-nazistas e odeiam
minorias étnicas russas e estrangeiros de aparência não europeia. Entretanto,
eles adoram brasileiros, então se você topar com um grupo de neo-nazistas,
basta falar “iá iz Brazílii” (eu sou do Brasil) que logo todos sorrirão e te
chamarão para beber cerveja e assistir algum jogo do Zenit (time de São
Petersburgo), Spartak (de Moscou) ou algum outro do gênero. Militares em geral
são tão cabeça-oca quanto, especialmente os paraquedistas da aeronáutica
(vdvshniki), que comemoram seu dia, 2 de agosto, nadando em fontes na rua,
bebendo vodka e procurando algum “tchurka” ou “ratch”, como eles chamam os
migrantes do Cáucaso e da Ásia Central, para bater.
16. Mesmo assim, a Rússia ainda é
um país muito mais seguro do que o Brasil, sendo Moscou, considerada a cidade mais
violenta do país, um paraíso comparada aos índices de criminalidade das cidades
brasileiras.
17. O tabagismo é um problema
quase tão grave quanto o alcoolismo. Na Rússia só agora estão tentando impedir
o fumo em espaços fechados e as áreas para não-fumantes frequentemente tem
cheiro de cigarro. Drogas ilícitas como maconha e cocaína são utilizadas em
escala muito menor que no Brasil, sendo que o narcotráfico não é um problema
grave no país.
18. O atendimento russo é um dos
piores que já vi, sobretudo em cidades grandes. Isto se deve talvez ao fato de
que a economia soviética era muito pouco competitiva e os funcionários não se
esforçavam para atender melhor, porque o salário vinha do estado de qualquer
forma, ou seja, na prática, a URSS era uma imensa repartição pública, somado à
grande quantidade de pessoas com nível superior completo (analfabetismo é
inexistente na Rússia), número que não corresponde com as necessidades do
mercado de trabalho e gera profissionais frustrados e insatisfeitos por
trabalhar numa área que não condiz com sua formação, como engenheiros
trabalhando como garçons ou médicos trabalhando como vendedores. Com a chegada do capitalismo, no entanto, o
serviço continua péssimo mas agora custa muito mais caro.
19. A corrupção é um problema tão
grave lá quanto aqui. A burocracia lá chega a ser pior do que aqui, o que quase
institucionaliza o suborno e a sonegação em todas as esferas.
20. Russos tem dois passaportes,
um doméstico, obrigatório a todos, e um para viagens ao exterior, facultativo.
21. Nesse passaporte doméstico fica
a “propiska” (lê-se “prapiska”). Consiste num registro do lugar onde a pessoa
mora. Qualquer mudança que essa pessoa fizer, deve ser devidamente registrada
pelas autoridades. Sem propiska, o cidadão corre o risco de ser ilegal dentro
do seu próprio país. Exemplo: se você tem propiska em Novossibirsk mas mora em
Moscou, corre o risco de não poder trabalhar, estudar nem receber atendimento
médico lá.
22. Para estadias superiores a 3
dias em qualquer cidade na Rússia é necessário fazer um registro, indicando
seus dados, onde você está hospedado e os dados do hospedeiro, que tem que ter
propiska no local. É comum ver policiais pedindo documentos a pessoas que eles
julgam não parecer locais (principalmente do Cáucaso e Ásia Central) para ver
se elas estão com o registro em ordem. É muito comum falsificá-lo também,
existindo empresas clandestinas especializadas nisso.
23. O clima na Rússia de um modo
geral é extremo: verões muito quentes e invernos muito frios. Eu peguei de 40
graus positivos a 40 graus negativos. As estações são muito bem definidas, o
que se reflete nas roupas, que variam com a estação não apenas por questão de
moda, como na maior parte do Brasil, mas por necessidade.
24. Existe uma variedade enorme de palavras em russo para frio e
roupas de frio.
25. A Rússia é um país rico em
recursos naturais, como gás e petróleo, sendo a grande exportadora de gás para
os países europeus. O aquecimento domiciliar é muito bom, sendo possível dormir
de cueca em casa enquanto faz 40 graus abaixo de zero na rua.
26. É muito comum tomar chá,
especialmente no inverno. Existe uma enorme variedade de sabores e mesmo depois
de voltar ao Brasil eu continuo com o hábito de tomar chá diariamente.
27. Russos são muito
supersticiosos, sobretudo no que se refere a dinheiro. Eles acreditam que não
se pode assoviar dentro de casa, porque faz perder dinheiro. O mesmo para dar
dinheiro nas mãos de outra pessoa; deve-se deixar a quantia em algum local,
para que a própria pessoa pegue (o mesmo se faz dando propina. Coincidência?). Nos supermercados isso é bem
visível, nunca a caixa vai te dar dinheiro na mão, tendo uma bandejinha de
plástico específica para isso. Ver um gato preto ou passar por debaixo de
escada e quebrar um espelho também são sinais de azar lá.
28. É feio apertar a mão de
alguém usando luva, por mais frio que esteja. Também deve-se deixar o sapato na
entrada de casa, onde há um cubículo feito para isso, onde também se deixam as
roupas de inverno. Nunca se deve saudar a alguém no batente da entrada de casa.
Segundo a crença, é no batente da entrada que moram os antepassados da família.
Ao botar o pé fora de casa e ter que voltar por algum motivo, é necessário se
olhar no espelho, senão dá azar. Ao viajar, antes de sair de casa, é de praxe
sentar-se um pouco, com as bagagens, para ter boa sorte. Isso realmente ajuda a
lembrar-se de algo que esteja faltando.
29. Ao contrário do que muitos
pensam, russos quase nunca falam “nazadorovie” ao beber vodka. Eles brindam
cada vez por algo diferente, em geral, começando pelo encontro, depois pelos
parentes, pelo amor, e por aí vai. É considerado descortês não aceitar ao menos
um gole.
30. A culinária russa é cheia de
pratos das mais diversas origens. Ao visitar alguma família russa, é muito
provável que lhe ofereçam, junto com a vodka (afinal russos nunca bebem sem
aperitivo) salada, de vários tipos e sabores, quase sempre muito gostosas;
“buterbrod” pão preto fatiado, com salame, queijo, picles, ou algo do gênero e
até mesmo caviar, em geral vermelho, mais barato. É muito comum também o
piel’miêni, uma espécie de ravioli russo, sopas, como o borsch, uma sopa
ucraniana à base de beterraba, também muito famosa, com a receita variando de
acordo com cada família. Aliás, é muito comum tomar sopa no almoço, sendo muito
comum colocar um creme de leite azedinho chamado “smietana”, que se acha em
todo lugar. Batata cozida com almôndegas também é muito comum, sobretudo nas
residências estudantis. Na rua o que mais se come é a “chaurmá”, uma espécie de
churrasco grego de origem asiática, e o “tcheburiêk”, idêntico ao nosso pastel.
As porções russas em geral são pequenas, comparadas às nossas, e eles não
gostam de misturar comida no prato, comem tudo separadinho.
31. Cobradores de ônibus/bonde quase sempre são mulheres. E
sofrem muito, porque raramente os ônibus de lá tem catraca: entram todos os
passageiros de vez e a coitada, que, obviamente, está sempre mal-humorada, tem
que correr atrás dos passageiros para que eles paguem a passagem. Ao pagar elas
te dão um bilhetinho, com uma numeração, em geral de 6 algarismos. Quando a
soma dos 3 primeiros é igual à soma dos 3 últimos (exemplo: em “151322” 1+5+1 =
7 e 3+2+2 = 7, ou seja, as duas somas são iguais a “7”), esse bilhetinho é
considerado “da sorte” (schastlivy biliet), que você deve comer e fazer um
pedido.
32. O transporte público na
Rússia, herança do socialismo, onde carro privado era luxo, é muito eficiente, tendo
linhas de ônibus, vans (legalizadas), bondes e, se a cidade for grande, metrô.
O tempo de espera no ponto é mínimo, e todos eles (com exceção das vans) tem
aviso sonoro e aquecimento, tudo pensado nas duras condições do inverno, que
congela as janelas e torna a espera no ponto de ônibus um suplício. Taxi só
chega agendando com a central telefônica e especificando o endereço para busca
no GPS. Só há uma bandeira e os carros raramente tem taxímetro ou qualquer tipo
de identificação externa. As corridas são, em geral, (bem) mais baratas que no
Brasil, mas eles adoram dar golpe em turista, aplicando preços exorbitantes,
principalmente indo ou vindo para o aeroporto, que em geral se localiza muito
longe do centro.
33. O segredo da beleza russa é a
maquiagem. As russas são muito vaidosas e quase nunca ousam sair de casa sem se
maquiar primeiro, aonde quer que vão. Sempre procuram se vestir bem e se
preocupam com a aparência. O padrão de beleza é o anoréxico, sendo um insulto
seríssimo dizer a uma russa que ela tem um bumbum grande, o que é o mesmo que
chamá-la de gorda. As periguetes de lá não se importam com o frio, chegando a
sair de minissaia e salto alto com temperaturas de 40 graus abaixo de zero e
montanhas de neve. Toda essa preocupação geralmente tem um objetivo: achar um
marido rico. As russas casam muito cedo, em comparação às brasileiras, que
muitas vezes nem se casam, e, geralmente, com algum cara que possa bancá-las.
34. Russos em geral são frios com
desconhecidos, principalmente em espaços públicos. As russas, que muitas vezes
usam quilos de maquiagem e se produzem como se fossem à cerimônia do Oscar,
quase sempre andam de cara feia, a menos que você esteja numa BMW ou numa
Mercedes, de preferência com um iPhone 5 na mão. Depois do primeiro contato,
eles tendem a se abrir mais, e aí você pode fazer grandes amigos(as).
35. Russos em geral são
puritanos: eles não tem equivalentes para “periguete” nem “ficar”, e agem como
se essas coisas lá não existissem. Porra nenhuma! Lá o que mais tem é
periguete, que ficam com Deus e o mundo nas baladas. Russos também acham muito
feio falar palavrão, sobretudo na frente de mulheres mas em russo existe uma
sub-língua inteira só de palavrões, chamada de “mat”. Mat baseia-se em 3
palavras-raízes, sendo elas “rui” (caralho), “pizdá” (buceta) e “iebat’”
(fuder), que, através de afixos podem gerar uma infinidade de palavrões
inimagináveis com os mais diversos significados, e mesmo a mocinha mais
angelical que você conhecer vai saber a maioria deles.
36. Devido ao antigo calendário
juliano, alguns feriados do calendário russo são comemorados em datas
diferentes das nossas, ou até mais de uma vez, sendo uma no atual calendário
gregoriano, e outra no antigo calendário juliano, como o ano novo e o ano novo
velho, comemorado na noite do dia 13 a 14 de janeiro. Pelo mesmo motivo o natal
é comemorado dia 7 de janeiro, sendo 25 de dezembro um dia como outro qualquer.
Páscoa também é comemorado depois da páscoa católica. O maior feriado russo é o
ano novo, que mistura características do nosso natal. Como na União Soviética
religiões eram proibidas, a árvore de natal virou árvore de ano novo e o Papai
Noel é o velho Ded Moroz (algo como “vovô friozão”, em russo) que traz
presentes na noite de ano novo. Os 10 dias seguintes ao ano novo são um
mega-feriadão em que quase ninguém trabalha e todo mundo enche a cara de vodka
e come salada em casa. É também uma época muito fria do ano, em que o Sol
aparece muito pouco. Devido à grande quantidade de fuso-horários na Rússia, é
comum celebrar o ano novo no horário local onde se está, mais o de Moscou,
sendo que os mais pinguços ainda comemoram de outras regiões.
37. Casamento é uma enorme
indústria na Rússia, sobretudo em Moscou, onde quase todo dia se veem limusines
passando com noivos gritando aos quatro cantos (principalmente a noiva, quase
sempre bêbada) indo festejar em algum restaurante caro. A tradição é semelhante
à nossa, mas casamentos na igreja são mais raros lá, por influência do passado
soviético recente, onde não se podia casar na igreja. Como casamento na igreja
é considerado algo mais sério (e seguido pelos casais mais religiosos), alguns
casam lá anos depois do do civil, realizando uma espécie de “segundo casamento”.
Os cartórios fazem bem esse papel, no
entanto, sendo o casamento civil uma cerimônia bem mais pomposa lá do que nos
cartórios brasileiros.
38. A noção de “democracia” na
Rússia é bem diferente da nossa. Lá não existem eleições para prefeito nem
governador, sendo eles nomeados pelo presidente, sem mandato definido. Só para
você ter uma ideia, Yuri Luzhkov, prefeito de Moscou durante 18 anos
consecutivos, só saiu do cargo porque brigou com o então presidente Medvedev. Praticamente
só há eleições para presidente e primeiro ministro, e aí já viu, Putin manda no
país há mais de uma década, fazendo troca-troca com Medvedev. Belo exemplo de
democracia.
39. Se você pretende viajar para
a Rússia, é bom aprender pelo menos o alfabeto cirílico, porque lá é difícil
achar alguém que fale inglês ou ver letreiros com tradução em inglês ou com
transcrição para alfabeto latino, pelo menos.
40. É muito comum ver preços mais
altos para estrangeiros, principalmente em museus e teatros. Em compensação, a
maioria desses lugares tem descontos para estudantes, basta apresentar sua
carteira de estudante, pode ser a brasileira mesmo.
41. Nos templos ortodoxos,
islâmicos ou budistas quase sempre a entrada é gratuita mas é proibido
fotografar (aliás, parece que tudo é probido na Rússia, mas todo mundo faz
mesmo assim). Para entrar nos templos ortodoxos, homens devem tirar o gorro ou
qualquer coisa que cubra a cabeça, e mulheres tem que usar saia e cobrir o
cabelo. Se você é mulher e for de calça (short ou bermuda nem pensar!) é
possível que você possa pegar um lenço na entrada da igreja (especialmente se
tiver um convento anexo) para enrolar na cintura, fazendo uma saia improvisada.
Se estiver menstruada, o que para eles é sinal de impureza, é melhor passar
longe então. As igrejas ortodoxas em geral tem uma nave circular, sem bancos e
com pinturas de santos ao invés de esculturas. A maioria dos czares e
imperadores russos hoje são santos, não importa se eles tenham cometido as
piores atrocidades durante seus reinados.
42. Se no Brasil parece que falta
infra-estrutura para deficientes físicos, na Rússia é muito pior. Eles
praticamente ignoram pessoas com necessidades especiais, sendo difícil achar
rampas, avisos sonoros e, sinceramente, não me lembro de ter visto passeios
táteis nem braille em lugar nenhum lá. O memorial da Batalha de Stalingrado
(dentre outros memoriais e pontos turísticos russos), que foi a maior batalha
da história da humanidade, na atual Volgogrado, é um exemplo gritante disso. Eu
não conseguia imaginar com os soldados mutilados ou aleijados depois da guerra
poderiam fazer para subir a interminável escada que leva até o pavilhão
principal, seguido da monumental estátua de 85m de altura da Mãe-Pátria.
43. Falando em exército, o
alistamento militar não só é obrigatório e dura 2 anos como se a pessoa for
dispensada nesse ano, deve voltar no próximo para se alistar (ou ser
dispensada) novamente, até os 27 anos. Servir o exército russo é o maior
pesadelo na mente dos jovens russos que fazem de tudo para não se alistarem.
Para serem dispensados, eles tentam esticar os estudos ao máximo possível,
fazendo graduação, mestrado e até doutorado para não ir pro quartel, ou
simplesmente tem filhos, o que garante 3 anos sem servir o exército, por filho.
Outros mais abastados pagam fortunas para não serem chamados, enquanto os mais
pobres tomam doses cavalares de cafeína e sobem e descem correndo lances
inteiros de escada, para elevar a pressão e serem reprovados no exame médico. Alguns,
pasmem, são capazes de cortar um dedo, ou de se passarem por gays, que não são
admitidos no exército.
44. Aliás, se aqui no Brasil a
gente reclama de homofobia, na Rússia é tolerância zero. Parada gay é proibida
por lei e os poucos homossexuais militantes que tentam fazê-la levam porrada da
polícia e de civis. Recentemente, em São Petersburgo, considerada a capital
cultural da Rússia, foi aprovada uma lei que criminaliza a “propaganda
homossexual”, ou seja, o simples fato de dizer em público “eu sou gay” é crime.
Bom, se você disser isso em português, talvez não vá em cana...
45. Outra característica marcante
da sociedade russa é o machismo. Desde a infância, nas escolas, meninos
aprendem marcenaria e mecânica enquanto meninas aprendem a cozinhar e costurar.
Elas são orientadas desde pequenas a se vestirem e parecem bonitas para os
homens e que devem obedecê-los, enquanto eles podem fazer o que quiserem.
Homens quase nunca ajudam nas tarefas domésticas e são muito ciumentos. Em
compensação, talvez pela frieza do homem russo, eles não cantam ou assobiam
para mulheres na rua, coisa tão comum no Brasil.
46. Em termos econômicos, a
sociedade russa é mais igualitária que a brasileira, não se notando uma
diferença tão grande quanto a nossa entre ricos e pobres. Lá há muito menos
miséria e mendigos, até porque é impossível viver na rua com o rigoroso inverno
russo. Em compensação, há uma grande concentração de riqueza nas mãos de uns
poucos, sendo que Moscou é a cidade com o maior número de bilionários do mundo.
47. A maioria dos russos já
esteve, está ou estará alguma vez na vida na Crimeia, um balneário no sul da
Ucrânia. Destinos turísticos populares também são Turquia e Egito, que são
inundadas de turistas russos beberrões. Para os que tem mais dinheiro,
Tailândia e Indonésia são os destinos turísticos mais procurados.
48. Todo russo que se preza tem
vk (abreviatura de vkontakte “emcontato” [sic], em russo), uma espécie de facebook
russófono com um ótimo sistema de compartilhamento de música e vídeo, que, por
sinal, está ficando popular entre brasileiros, e/ou livejournal, um tipo de blog
e rede social.
49. Russos adoram adornar títulos
de profissões. Se lhe oferecerem uma vaga de emprego como “promoter”, não ache
que você vai organizar mega eventos ou trabalhar numa grande empresa, mas sim
distribuir panfletos na rua, ou se te chamarem para ser “manager em landschaft”
(mistureba do inglês para “gerente” e do alemão para “paisagem”), não vá achando
que você vai ser chefe de algum departamento executivo. Balela, isso quer dizer
“faxineiro”.
50. Os russos em geral conhecem
muito pouco sobre o Brasil, só o basicão: carnaval, futebol, praia, e,
aparentemente, nossos maiores produtos de exportação por lá, o café, a carne
bovina e as novelas, que por sinal há tempos não passam mais na TV. As mais
famosas foram Escrava Isaura e O Clone, cujos personagens ainda habitam as
mentes de muitos. Contudo, quando falo a eles que o Brasil é mais rico que a
Rússia, sendo a 5ª maior economia do mundo, 5º país mais populoso e 5º maior
país por território (4º maior, em área contínua), eles ficam pasmos e pensam
que eu estou contando lorota. Por algum motivo eles acham que a maioria dos
brasileiros (ou todos, sei lá) são negros, e não acreditam que um branco ou um
asiático possa ser brasileiro, embora eles tenham assistido novelas
brasileiras, onde negro é mosca no leite. Eles também não fazem ideia de que
língua nós falamos, sendo o palpite mais comum “brasileiro” seguido de
espanhol.
...
sábado, 23 de março de 2013
O maior dos preconceitos
A palavra “preconceito” por si só
já traz uma carga negativa. Ninguém diz “quando eu crescer, quero ser
preconceituoso como o meu pai” ou cola no para-brisa traseiro do carro “eu tenho
orgulho de ser preconceituoso”. Quem tem preconceito (e quase todo mundo tem) o
esconde, e, se deflagrado em público, pode até ir para a cadeia, se for
enquadrado como racismo ou homofobia. Por sinal, preconceito e racismo já meio
que viraram sinônimos, muitas vezes amalgamados como “preconceito racial”. Mas
há um preconceito muito comum e que quase ninguém percebe. Um preconceito conveniente
para a sociedade, que alcança praticamente todos os seres humanos, que está
embutido no senso comum em todos os estágios e em todos os momentos das nossas
vidas. Algo tão natural que é considerado inerente ao ser humano e até é
utilizado pela natureza como artifício de sobrevivência. Esse preconceito é tão
destruidor e corrosivo quanto qualquer outro, ou mais, justamente por ser tão
difundido e aceito. Ainda não sabe a que me refiro? À beleza, naturalmente.
A beleza determina a relação
entre os seres humanos e a sua interação com o resto do mundo. É o que norteia
a nossa percepção das coisas, que nos afasta ou aproxima de pessoas, animais e
objetos inanimados. A primeira frase pronunciada por um ser humano, segundo a
cosmogonia Macuxi, uma tribo indígena do Amazonas, logo após ser criado, foi “Como
é tudo bonito para mim!”. Isto dá uma ideia de como é natural considerar o que
é belo como bom, e, consequentemente, o que é feio, como ruim. Você, que está
lendo este texto, há de convir que isso é algo incutido em nossas mentes desde
sempre. A ideia de escrever este texto já estava sendo maturada na minha cabeça
há um certo tempo, mas a gota d’água veio na noite de hoje, navegando por blogs
e sites de humor, que podem ser considerados bobagem, mas que para mim refletem
muito do senso comum e do que as pessoas pensam da vida e coisas do cotidiano.
Muitos sites de imagens engraçadas também tem imagens eróticas, com mulheres
lindas (isso, mulheres, ainda vivemos num mundo machista) e frases como “ô lá
em casa!” ou “eu casaria com ela fácil-fácil”, entre outras afins. Ora, a
beleza é um dos fatores principais que atraem dois seres humanos, quiçá o fator
principal para os homens em busca de uma parceira, até aí tudo bem, não? Quem nunca se apaixonou por
alguém à primeira vista, ou se sentiu fortemente atraído(a) por alguém apenas por
sua beleza, através de algum contato visual, por mais breve que seja? Nada mais se conhece sobre o
objeto de sua atração. Você não sabe nada sobre os gostos da pessoa que te
atrai tanto, o que se passa na sua cabeça, sua história de vida, seus
interesses, dúvidas, pontos fortes e fracos. Essa pessoa pode ser uma assassina
em série, sofrer de algum distúrbio psicológico ou simplesmente ser
desagradável, ter o comportamento que você odeia em outras pessoas, ou seja,
ela pode ser tudo o que você mais detesta, mas, por ter um rosto e um corpo
bonitos, é até possível que você ultrapasse todas essas barreiras para estar
junto com essa pessoa. Por outro lado, ela pode ser uma pessoa maravilhosa, ter
ideias geniais e uma história de vida fascinante, mas, por não ser considerada
bela, é detestável e ignorada na maioria das situações, pela maioria das
pessoas. É quase que um senso comum de que se não se tem beleza, deve-se vencer
na vida pela inteligência, de que a beleza é fundamental em praticamente
qualquer momento da vida de uma pessoa. Disso se movimenta a indústria mundial
de cosméticos e moda, da incessante vontade das pessoas de parecerem mais
bonitas do que são, de não parecerem feias. Ninguém quer ser feio. Paradoxalmente,
dificilmente há numa sociedade mais pessoas consideradas “bonitas” do que “feias”.
Mesmo na Rússia ou no Brasil onde muitos acreditam que vivem as mulheres mais
bonitas do mundo, países onde eu vivi, eu acho que a população “feia” é
desproporcional em relação à “bonita”, ainda que essa relação flutue de acordo
com o poder aquisitivo da população avaliada, de sua origem social, de sua
capacidade de se vestir melhor, de cuidar de sua beleza, de comer bem e cuidar
de sua saúde. Quantos tem condições de fazer isso tudo, e bem? Poucos. Ainda assim, ser bonito é
fundamental, é elogio, é ter sorte na vida. Ser feio é sinal de dificuldades, é
indesejável, é insulto. Então eu pergunto: qual é a diferença entre detestar ou
sentir nojo de uma pessoa apenas por sua feiura, segundo os padrões de sua
sociedade, ignorando sua personalidade e idiossincrasias, do preconceito racial
ou sexual?
Considerar alguém inferior, indesejável, asqueroso, por ser feio é mais
aceitável que fazê-lo baseando-se na cor da pele ou orientação sexual da vítima?
Na minha vida já me enganei
várias vezes com beleza. O que me atraía num momento inicial logo me levava à
repulsa posterior, quando conhecia mais a pessoa com quem lidava. Via que, por
mais que eu me desse conta de que essa pessoa é estúpida, pobre de espírito,
escrota ou egoísta, eu ainda assim não podia deixá-la, afinal, tudo isso era equilibrado
pela sua beleza estonteante. Da mesma forma, tão latente quanto é o preconceito
da beleza é o racial ou qualquer outro tipo de preconceito, constantemente
chamado de estereótipo. É ter mais medo de um negro que anda logo atrás de você
na rua, na calada da noite, do que de um branco. É achar que um branco não
entende o que é preconceito ou não entende o que é ter dificuldades na vida. É
como achar que lugar de mulher é na cozinha, fazer piadas de gays ou criticar
alguém por sua crença ou lugar de origem. Gostar de alguém só por sua beleza ou
desgostar de alguém só por sua feiura, na minha opinião, é tão preconceito
quanto qualquer um dos exemplos acima. E o que é o preconceito senão a máscara
do ignorante?
Preconceitos e estereótipos são, primeiramente, originados da ignorância
daquele que os aplica. Quando alguma pessoa me diz que Belarús, o país da minha
esposa (erroneamente chamado de “Bielorrússia” aqui no Brasil) é a mesma coisa
que Rússia sem conhecer praticamente nada sobre o país dela nem sua história e
cultura, ou que certos países são “a mesma coisa” apenas por ficarem perto um
do outro ou ter quaisquer traços em comum, eu me vejo diante de uma pessoa que
acha que sabe do que está falando, apenas isso. A diferença entre o indivíduo
ignorante e o preconceituoso é que o ignorante apenas desconhece um assunto,
sem tomar nenhuma posição. O preconceituoso toma, pois acha que sabe do
assunto, e esse problema é agravado sobretudo quando a pessoa acha que sabe
tanto que ela não tem o que aprender. Não importa, você pode citar exemplos de
países vizinhos, cultural, geografica e politicamente falando, que se
antagonizam, como os módicos Brasil e Argentina, as severas Sérvia e Croácia, e
as alarmantes Coreia do Norte e Coreia do Sul, mas ainda assim pessoas
ignorantes acham argumentos tão ignorantes quanto, para continuar na sua plácida
ignorância, que muitas vezes mais mal faz a elas mesmas do que à aqueles que se
deparam com ela, porque a pior desgraça que pode acontecer a tais pessoas é permanecer
exatamente como são. Fica a dica para derrubar argumentos tolos de pessoas
assim, basta usar a seguinte pergunta: “E o que você sabe sobre isso?” – funciona na maioria das vezes.
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